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Artigo
Publicado em 10/11/2014 por Renata Silva

Luísa Valente, investigadora do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR), trabalha desde 1990 na área da aquacultura. Recebeu este sábado o prémio Femina 2014, dentro do tópico "Conservação do Ambiente e da Natureza" pela sua investigação nesta área, onde procura fontes de alimentação para os peixes em alternativa à proteína animal, evitando que se utilizem os recursos do mar, cada vez mais escassos face ao crescimento da população.

O que é que os portugueses não sabem sobre aquacultura que gostaria que soubessem?

Não é um problema de Portugal. É transversal a quase todos os países. As pessoas não têm a menor ideia do que é a aquacultura, do que é produzir peixe e o que é que isso implica. Há todo um conjunto de mitos à volta desta área. E criam-se alguns problemas de perceção do que efetivamente se trata: a aquacultura não é mais do que uma produção de animais em cativeiro e é um processo no qual em nenhuma dieta podemos forçar o que é quer que seja que eles não gostem ou que não estejam habituados a ingerir. Qualquer dieta se baseia na satisfação das necessidades alimentares do próprio animal, de modo a podermos produzir. A primeira questão que me colocam sempre é se estamos a dar hormonas ou estimulantes. Estes produtos são absolutamente proibidos. Nós preocupamo-nos muito com o bem-estar animal. Queremos é que os animais cresçam de forma saudável e rápida, mas para isso precisamos de adotar estratégias que vão de encontro ao que eles precisam.

Como surgiu o seu interesse pela aquacultura?

Quando fiz a licenciatura em Biologia o que eu gostava mesmo era de trabalhar com plantas, mas a vida dá muitas voltas e, quando comecei a trabalhar, acabei por ir trabalhar para uma área animal. Aceitei o desafio e comecei a perceber de que iria ter de fazer investigação na área para a qual fui contratada, neste caso, contrataram-me para dar aulas de zoologia e por isso tinha de fazer uma investigação compatível. Foi-me proposto trabalhar em aquacultura e fui ganhando o gosto pela área.

Ganhou o Prémio Femina 2014. O que significa este prémio para si e para a sua carreira?

É sempre uma satisfação ver o nosso trabalho reconhecido. Nos telejornais é só notícias deprimentes e portanto alguém nos telefonar com uma notícia boa é um alento para continuar a trabalhar. Acima de tudo o que me surpreendeu mais foi a categoria do prémio, pois eu trabalho com produção animal. O prémio mostrou o reconhecimento pelo meu trabalho nesta área e é importante para sensibilizar as pessoas para o facto de ser possível produzir respeitando o ambiente, o equilíbrio da natureza e procurando fontes de alimentação para os animais, mais sustentáveis, que garantam o seu bem-estar e a qualidade final do produto.

"Já não é possível ir apenas buscar peixe ao mar"

Este prémio que recebeu está inserido na categoria da conservação do ambiente e da natureza. Em que medida a aquacultura pode contribuir para essas áreas?

Podem contribuir de várias formas. Em primeiro lugar a aquacultura não está a competir diretamente com as pescas. Pelo contrário, está a resolver um problema. As quotas de pesca estão completamente no topo. O mar não nos consegue aumentar a sua produção, temos que limitar e as populações naturais estão a diminuir. Já não é possível ir buscar apenas peixe ao mar. Isso é uma realidade. Neste momento metade do peixe que se consome a nível mundial já vem da aquacultura. Com a população do mundo a aumentar todos os anos, a única forma de saciar as nossas necessidades de peixe é através da produção de animais em cativeiro. Estamos a salvaguardar as nossas populações naturais através dessa produção e a reduzir imenso a contribuição de animais selvagens, provenientes da pesca, que são incorporados em dietas para animais da aquacultura. Os peixes que são pescados para fazer uma farinha composta por ómega3 e que faz parte da alimentação destes animais, são peixes com um baixo valor económico e que nós muitas vezes não consumimos.

Grande parte do salmão, por exemplo, que consumimos vem da aquacultura: apenas 10% da sua alimentação vem de peixe, o resto é proveniente de fontes vegetais.

Pode falar-nos um pouco sobre o principal tópico da sua investigação?

O que fazemos é procurar substituir com fontes proteicas vegetais, usando plantas que não entram em competição direta com a alimentação humana e que são de baixo valor económico. Neste momento temos um projeto que tem como objetivo procurar encontrar novas fontes sustentáveis. Temos projetos em que estamos a avaliar a incorporação de algas, de resíduos da indústria alimentar (aproveitamentos dos desperdícios das conserveiras, por exemplo), nos quais temos de ter muito cuidado com a forma como são processados e incorporados nas dietas. Não podemos correr riscos no que toca à segurança alimentar. Temos um circuito no CIIMAR com um número de réplicas muito elevado de tanques onde nós testamos fórmulas alimentares e onde avaliamos o crescimento, o bem-estar e o estado imunológico dos animais. Fazemos análises sensoriais com consumidores para saber se são ou não bem aceites e se são detetadas diferenças. Temos tido projetos continuados em colaboração direta com a indústria dos alimentos e de rações e com empresas produtoras de peixe, numa investigação aplicada. É importante validar os nossos resultados junto das empresas.

"A grande aposta em Portugal na aquacultura passa pela produção de bivalves"

E o que está a travar o avanço da aquacultura em Portugal em comparação com outros países?

Portugal é o segundo país do mundo que mais peixe consome. Consumimos efetivamente 70 quilos de peixe por ano, 30 são de bacalhau. Dentro da União Europeia provavelmente seremos o que consome menos peixe de aquacultura. A maior parte do peixe que nós consumimos vem da pesca, tem a ver com a nossa cultura. É importante que as pessoas percebam que importamos 60% do peixe que consumimos. A nossa balança comercial está completamente desequilibrada. Só é rentável produzir em aquacultura um peixe que tem um valor economicamente elevado, como as douradas, robalos, trutas, entre outros. Se for um peixe de valor mais baixo não paga os custos de produção. Uma dourada chega a demorar dois anos na aquacultura desde o ovo até que é posto na prateleira. São investimentos de longo prazo em que o peixe tem de ser mantido muito tempo em cativeiro.

A velocidade de crescimento dos peixes depende da temperatura da água e a nossa costa atlântica é praticamente incompatível com essa produção, por exemplo devido ao facto de as temperaturas serem baixas. Não podemos competir com países do Mediterrâneo que têm condições e temperaturas muito mais favoráveis.

O que falta investigar e fazer nesta área? Em que aspetos é possível apostar?

Era importante termos uma marca diferenciadora naquilo que se produz em Portugal, em regimes semi-intensivos por exemplo. A grande aposta em Portugal passa pela produção de bivalves, ostras, mexilhões e ameijoas, pois temos excelentes condições para esse efeito. As ostras são um produto muito interessante em França e eles estão com problemas de doenças muito graves e nós temos condições para produzir e exportar estes alimentos, respondendo a estas necessidades. Neste momento e no curto prazo serão os responsáveis pelo crescimento da aquacultura no país.

É importante apostar em produtos de alta qualidade, mais caros e também em produtos de valor mais baixo que o consumidor possa pagar. É essencial colocarmos à disposição da população algo que tenha um elevado valor nutricional e que a pessoa consiga pagar. Tem que se trabalhar paralelamente os dois segmentos. A escolha dos ingredientes nas dietas é vital. Se conseguirmos reduzir os custos de produção, tornamos possível um custo final do peixe mais baixo e propor algo que a população que consiga pagar. Uma coisa que tem vindo a acontecer em Portugal é o aumento do consumo do peixe-gato, porque é um peixe barato, mas é um peixe asiático cuja dieta não é rica em Omega 3 e portanto o consumidor não vai ganhar esses benefícios.

"Enquanto investigadora choca-me o desfasamento entre a investigação que é feita e a atividade económica em Portugal"

Tendo em conta o atual panorama da aquacultura em Portugal, o que é que a preocupa enquanto investigadora?

Acima de tudo no país o que mais me choca é o desfasamento entre o nosso nível de investigação e a nossa atividade económica. A área da aquacultura em Portugal tem investigadores de topo internacional, a fazer investigação ao mais alto nível, mas depois não há uma correspondência em termos de investimento económico na aquacultura. Quando vamos a conferências internacionais apresentar os nossos trabalhos, vemos efetivamente que quem usufrui dos nossos trabalhos não são as empresas em Portugal, mas sim empresas internacionais. A produção de aquacultura em Portugal é muito baixa. É uma área onde não se tem investido.

Que mudanças são necessárias, na sua opinião, para haver um maior investimento nesta área?

O Governo tem falado muito no mar. É preciso transformar ideias em ações. Em Portugal não há por exemplo um mapeamento das áreas onde se pode fazer aquacultura. Os licenciamentos de empresas são extremamente morosos. As pessoas não podem esperar anos para ter um licenciamento, não há um balcão central onde a pessoa se possa dirigir e pedir um licenciamento. Às vezes há financiamento, o que é muito difícil de acontecer e não há licenciamentos. É caricato. O Governo tem ser facilitador nesse tipo de atividades. Há aquaculturas que se vão implementando, mas que para isso vão buscar licenças antigas de produtores. Instalar de novo uma entidade de produção não é fácil. A tecnologia está no mercado e a produção de peixes em terra é algo em que se poderia apostar. O risco na aquacultura é muito elevado e em Portugal não há seguros, ainda não há regulamentação para isso. É uma atividade de alto risco. Os investigadores têm de assegurar esse risco e, quem trabalha no mar, corre mais riscos: em casos de tempestade, por exemplo, não podem ir alimentar os peixes, facto que faz com que não cresçam e percam viabilidade económica. São precisos estudos económicos sérios para avaliar a rentabilidade do setor. Ele é rentável e tem vindo a crescer nos outros países, o que é preciso é adaptar e escolher os sistemas de produção mais adequados em cada caso em Portugal. A aquacultura poderá ajudar a resolver a questão da balança comercial. Se pelo menos passarmos de 70 para 50% já seria ótimo, mas é preciso investimento e propostas sérias para os investigadores. Há ainda um longo caminho a percorrer.

O que me daria satisfação era ver disparar a produção da aquacultura em Portugal.

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