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© Miguel Claro
Artigo
Publicado em 17/9/2012 por Isabel Pereira

Astronomia e fotografia: duas paixões inseparáveis para Miguel Claro. Aos 35 anos, Miguel  é astrofotógrafo e astrónomo amador. As suas imagens têm percorrido o mundo, sendo publicadas em livros e nas mais prestigiadas revistas internacionais da especialidade, como é o caso da "world´s best-selling" Astronomy magazine, Sky and Telescope, Astronomy Now, BBC Sky at Night, Pratical Astronomer, Ciel et Espace, Astronomie ou Astronomìa .Várias imagens de Miguel Claro já foram distinguidas pela NASA como EPOD - Earth Science Picture of the Day e APOD - Astronomy Picture of the Day. Em agosto lançou o seu primeiro livro "astroFotografia - Imagens à luz das estrelas".

 

O que surgiu primeiro, o interesse pela astronomia ou pela fotografia?

Os dois gostos foram crescendo praticamente em paralelo, se bem que o gosto pela astronomia tenha surgido primeiro. Já quando eu era pequeno, com 12/13 anos, comprava revistas de astronomia com a mesada que os meus pais me davam. Mas depois as coisas foram-se desenvolvendo muito em paralelo e assim que comprei o primeiro telescópio a primeira coisa que fiz foi adaptar uma câmara ao telescópio para fazer imagens.

O que o fascina na astrofotografia?

O que mais me fascina é poder registar a beleza que existe no universo. Há certas coisas que a nossa vista não consegue captar, mas através de processos fotográficos é possível atingir um grau de detalhe que a olho nu não conseguimos captar. No fundo é poder captar a beleza do universo e poder partilhá-la com os outros.

Como foi desenvolvendo a sua formação fotográfica?

Eu não tenho formação académica em astronomia. Isto começou como um hobby, depois comecei a comprar livros, e a ler muitas coisas em revistas também. Tornei-me membro da associação de astrónomos amadores e comecei a ir a muitas palestras, sessões de observação. Tirei um curso de fotografia. E depois destas bases fui aprendendo também com a experiência e com o contacto com outros profissionais da mesma área.

Conseguir uma boa foto é muito trabalhoso?

Depende, em primeiro lugar, do que consideramos uma boa fotografia. Eu acho que uma boa fotografia é aquela que terá um teor científico patente, mas também uma parte artística e estética que a torne apelativa. Muitas vezes no dia a dias nós passamos por situações de uma grande beleza, só temos de estar atentos. Existem imensos fenómenos atmosféricos diferentes que ocorrem até durante o dia e que passam despercebidos para a maior parte das pessoas. Passamos tanto tempo preocupados com os problema do dia a dia que olhamos mais para o chão do que para o céu, se tivermos mais atenção ao que se passa à nossa volta podemos conseguir uma boa astrofotografia.


Como é o processo criativo, vai sempre para o terreno com uma ideia fixa do que quer fotografar, ou costuma improvisar?

É um pouco das duas coisas. Como sabemos, no universo as coisas são muitos certas, muito matemáticas. Nós podemos à partida, através de softwares, planear onde vai estar a estrela x ou o planeta y, no dia tal, às tantas horas . Isso permite-nos planear tudo com muito rigor e no que depende da parte astronómica vai correr bem, de certeza. O tempo é que pode mudar as coisas: pode estar mais nublado, mau tempo e é o suficiente para perdermos um fenómeno celeste. Muitas das imagens que eu faço são realmente planeadas. Quando eu ando na rua mentalmente já estou a fotografar. Passo por um sitio com algum monumento ou algo que eu acho que tem um brilho diferente durante a noite e já estou a imaginar a fotografia, tendo em conta o enquadramento astronómico também. Não se trata apenas de fotografar a paisagem, mas de fotografá-la enquadrada com o céu, com o universo. Por isso é que é importante saber o movimento das estrelas, onde nascem e onde se põem, qual a sua trajetória e que fenómenos vão acontecer.
Já aconteceu também chegar ao local e ter de improvisar: uma vez ia fotografar uma chuva de estrelas que estava prevista, mas chegando ao local a lua estava muito cheia e acabou por me ocultar grande parte dos meteoros e havia muita luz artificial e acabei por ter de improvisar. É importante termos abertura para o que vamos encontrar no local.

Qual é, para si, a importância de um fotógrafo da natureza no panorama geral da ciência?

É muito importante porque os cientistas preocupam-se com a aquisição e análise científica de dados, que é o trabalho deles mas deixam de lado a parte estética. A astrofotografia permite mostrar a beleza e magnificência que existe no universo e que pode cativar a população que, não tendo conhecimentos científicos tão profundos, fica curiosa por aquilo que vê e mais interessada pela área.

A astrofotografia é uma área muito desenvolvida no nosso país?

Para a dimensão do nosso país até tem algumas pessoas interessadas que se concentram mais um Lisboa, no Porto e no Algarve. Mas é realmente um nicho de mercado. Na minha opinião, existem muitas pessoas que tem um grande fascínio pela astronomia, pelos astros, pelo universo, e nesse sentido em Portugal existe um enorme potencial. Por outro lado, temos vários fatores naturais a nosso favor: temos um país muito soalheiro, muitas noites límpidas, etc…A área precisa de muito desenvolvimento, mas acho que existe potencial para isso.

O que gosta mais de fotografar? Há alguma zona do país onde consiga melhores fotos?

Há uma zona onde eu gosto muito de fotografar, a zona do Alqueva, onde temos o chamado “dark sky Alqueva”, que é a primeira zona no mundo a receber a “Starlight Tourism Destination Certification”, concedida pela Fundação Starlight. São cinco ou seis minicípios onde foram feitas medições e percebeu-se que o céu é realmente muito mais escuro e conseguimos ver as estrelas e os planetas com muito mais facilidade. É um sitio fascinante!

Qual o trabalho que lhe deu mais gosto fazer?

Cada trabalho tem a sua beleza e o seu desafio, mas houve uma imagem que eu fiz recentemente, precisamente na zona do Alqueva, perto de Portel, que me deu muito trabalho. É uma foto vertical da via látea, que eu fiz em mosaico. A fotografia abarca um campo muito grande e para dar um grau de detalhe muito grande também, tive de fazer esta composição com 18 fotografias numa só imagem final.

A nível pessoal o que destaca como mais enriquecedor na sua atividade?

Eu faço o que gosto, e logo aí sinto-me preenchido. A fotografia, para mim só faz sentido aliada à astronomia, e poder juntar estas duas paixões é muito bom. A um nível mais intimo, penso que nós acabamos por ver o mundo de outra forma ao fazer este tipo de imagens: a grandiosidade do universo remete-nos simultaneamente para uma sensação de insignificância e de preenchimento. Como seres humanos faz-nos ter uma perceção diferente das coisas.

Lançou, em agosto , um livro sobre astrofotografia, como surgiu esse projeto?

Essencialmente surgiu do gosto de partilhar esta beleza do universo com os outros. O livro tem uma espécie de galeria impressa dos meus trabalhos, mas também funciona como um guia passo a passo, ou seja pretende explicar como fazer astrofotografia. A ideia é tentar ajudar os outros e motivá-los a fazerem também este tipo de fotografia. Uma das coisas que eu fiz questão foi de incluir apenas fotografias tiradas em Portugal, porque acho que é importante as pessoas perceberem que não é preciso ir muito longe para se fotografar, e para se fazerem boas imagens.

Quais são os seus projetos para o futuro?

Acima de tudo espero continuar a fotografar. Quero também viajar o máximo possível para apostar num próximo livro com imagens fora do país. Depois as coisas vão acabando por surgir.

 

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Foto: Miguel Claro

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Miguel Claro [Galeria de imagens do autor]

Miguel Claro

O rasto da lua e das estrelas - Alentejo

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O Arco da Via Láctea - Elvas.

Capa do livro "astroFotografia - Imagens à luz das estrelas"

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