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© Mafalda Paiva
Artigo
Publicado em 15/1/2013 por Isabel Pereira

Depois de um início de carreira como designer, há cerca de dez anos que Mafalda Paiva se reencontrou com a paixão de ilustrar. Hoje faz dela profissão. A ilustradora científica terminou recentemente o mestrado na especialidade e o seu trabalho já é reconhecido internacionalmente

Como surgiu o seu interesse pela ilustração científica?

Desde muito nova que eu tenho interesse quer pela ilustração, quer pelos animais. Desde sempre desenhei animais. Aliás o meu pai fazia colecção de selos e um dos meus passatempos era reproduzir os desenhos dos selos em ponto maior.

Sempre gostei de desenhar, mas não foi por aí que comecei o meu percurso profissional: fiz o curso de Design de Mobiliário Urbano e Espaços Públicos. Só mais ou menos há dez anos é que voltei a olhar para a ilustração, primeiro trabalhei com ilustração editorial e há cerca de cinco anos fiquei a saber dos cursos de ilustração científica dados pelo Pedro Salgado. Comecei num workshop e mais tarde inscrevi-me no mestrado de Ilustração Científica, que terminei agora.

Desde então tem feito muitos trabalhos na área?

Agora trabalho sobretudo nisto. Estou no Eco Museu Municipal do Seixal e 90% do meu trabalho é ilustração não só ambiental e biológica, mas também de património industrial e etnográfico. Depois faço também alguns trabalhos de ilustração científica biológica para fora.

O que gosta mais de ilustrar?

Acima de tudo eu gosto muito de ilustrar. Eu perco horas e horas a desenhar. Obviamente que há coisas que nos dão mais gosto, e nesse sentido talvez destaque os insetos. Estou muito tempo a observá-los e faço coleção de “bichinhos”…

Como é o processo criativo, é preciso muita pesquisa?

Sim! Principalmente no meu caso que não sou bióloga e por isso necessito procurar muito mais do que um biólogo que já tem conhecimento de base. Normalmente quando estou a preparar uma ilustração tento saber o máximo possível sobre o elemento que pretendo ilustrar: faço pesquisa não só na internet como em museus de história natural e livros, tento ir para o campo e observar o animal ou a planta, e faço fotografias.

Quanto tempo pode demorar todo esse processo?

Depende muito da ilustração que pretendo fazer, mas normalmente a parte da pesquisa pode demorar uma semana e depois a ilustração cerca de 30 horas ou mais.

Qual foi o trabalho que, até hoje, lhe deu mais gosto fazer?

Tive um gosto especial em fazer a minha tese ("Do montado até ao produto acabado, uma história visual") [ver recursos]. Era sobre a cortiça desde que sai do sobreiro até ao produto terminado, a rolha, numa fábrica do século passado. Depois como gosto muito de desenhar insectos, um dos insectos que gostei mais de fazer foi o escaravelho da palmeira [ver recursos], aliás essa ilustração tem estado em Nova Iorque numa exposição.

"Em Portugal não existe mercado para muitos ilustradores científicos"

Tem apostado em internacionalizar os seus trabalhos?

Já começo a ter alguns trabalhos fora. Estive nessa exposição do Museu de Estado de Nova Iorque; tive ilustrações na exposição da Guil of Natural Science illustrators (GNSI), também nos EUA; e estive numa exposição em Barcelona, da Associação Catalã de Comunicação Científica, na qual ganhei um prémio com uma ilustração da processionária do pinheiro. Já começo a ter alguns contactos a nível internacional, mas ainda estou no início. Eu acho que em Portugal não existe mercado para muitos ilustradores científicos, por isso é importante tentar divulgar o nosso trabalho a nível internacional e ir por esse caminho. No meu caso, o facto de ter site na internet e ter página em plataformas como o linkedin tem sido fundamental para ser contactada internacionalmente.

Normalmente faz os trabalhos e depois tenta divulga-los ou são encomendados para um fim específico?

Inicialmente fiz ilustrações no âmbito do mestrado e depois acabei por concorrer a concursos e exposições, neste momento já comecei a receber alguns contactos. Recentemente, por exemplo, fui contactada por uma artista plástica para colaborar numa instalação dela em Maribor, fazendo uma ilustração do escaravelho Hitler. Foi engraçado porque tínhamos de fazer a ilustração com base científica mas sem vermos o escaravelho: fui buscar as bases e estruturas de escaravelhos já existentes e “montei” um escaravelho totalmente novo, que não existe na natureza.

Na sua opinião qual é a importância da ilustração científica para a própria ciência?

Acho que é muito importante, porque é uma forma de comunicar a ciência visualmente. Os cientistas descrevem teoricamente e depois quando pegamos nessa teoria há necessidade de visualizar para compreender e aí a ilustração científica é muito importante.

A ilustração científica é mais ciência ou mais arte?

Eu acho que é ciência com arte! Obviamente que a composição artística acaba por também ser importante para encher o olho, e depois não pode faltar o rigor científico.

A nível pessoal o que destaca como mais enriquecedor nesta atividade?

O mais enriquecedor é o facto de estar a fazer algo que me dá muito prazer e estar simultaneamente a aprender. Aprendo muito nas minhas pesquisas, principalmente sobre o comportamento dos animais, e é muito engraçado!

Projetos para o futuro consegue prever?

É muito difícil falar em futuro hoje em dia. Mas acima de tudo espero que passe por continuar a ilustrar muito!

Na ilustração:  Mocho galego (Athene noctua)

Ilustração: Mafalda Paiva

 

 Mafalda Paiva é autora de duas das obras da Exposição "Ciência e Arte",  organizada pelo Ciência 2.0

 

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