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© João Nunes da Silva
Artigo
Publicado em 15/2/2013 por Renata Silva

Para além de fotografar a biodiversidade que nos rodeia, também escreve sobre ela. Tudo com uma missão: sensibilizar e informar o público acerca da conservação da natureza. Com 47 anos, João Nunes da Silva conta com mais de 20 de experiência nesta área e explica ao Ciência 2.0 o que o apaixona nesta profissão, que nem sempre é fácil. 

Quando descobriu que queria ser fotógrafo da natureza?

Sempre fui um apaixonado por vida selvagem. Quando era adolescente gostava de ir observar as aves e a natureza. Anos mais tarde tarde fui um dos fundadores da associação ambientalista Quercus e, portanto, durante muito tempo estive envolvido em conservação da natureza e posteriormente podemos dizer que a fotografia foi uma espécie de prolongamento desse meu trabalho. Gostava de registar os aspetos naturais que observava e gradualmente a fotografia começou a ter cada vez mais importância na minha vida ao ponto de optar ser fotógrafo profissional, profissão que exerço há 23 anos.

Qual foi a fotografia que mais o marcou até ao momento?

Há uma fotografia que me marcou imenso. Foi uma fotografia que fiz no Mediterrâneo com flamingos a voar e essa imagem foi usada em várias campanhas de uma marca portuguesa que foi divulgada em diversos locais, não só em Portugal mas também nos Estados Unidos e Inglaterra. Para mim foi uma grande honra ver a minha imagem tão divulgada, para além de ser uma foto de uma espécie que eu gosto muito.

O que lhe dá mais gozo fotografar?

Considero-me um fotógrafo da natureza muito completo porque há pessoas que só gostam de fotografar aves ou insetos e eu gosto de fotografar tudo o que tenha a ver com a natureza. Paisagens, macros, répteis, etc. Há duas áreas para mim que são as zonas onde eu mais gosto de fazer fotografia: uma são as zonas de montanha, gosto imenso de sentir o frio, de me sentir no alto da montanha e outra são as zonas de estuário, nas quais tenho muito trabalho feito, onde existem muitas aves.

Na sequência desta resposta, o que o diferencia, na sua opinião, de outros fotógrafos da natureza?

Acho que os fotógrafos da natureza, na sua maioria, se complementam uns aos outros. É mais o complemento do que a diferença de certo modo. Não me considero diferente dos meus colegas. Há uns que gostam mais de fotografar numa floresta e eu gosto mais de fotografar em estuários e montanha. Agora há algo que acho que um fotógrafo de natureza tem de ter: é conhecer o habitat, é ter noções de conservação e saber que o trabalho de fotografia de natureza tem de ter uma missão. Quando faço um trabalho não é só para dizer que tenho uma imagem bonita ou que fotografei uma determinada espécie. Tenho sempre um objetivo final, uma missão: fazer um trabalho ou um artigo que chegue a muita gente e que depois as pessoas fiquem sensibilizadas para as questões da conservação e do valioso património que temos em Portugal. Esse é o meu objetivo.

O que significa para si fotografar a natureza?

Para mim mais do que um trabalho é um estado de espírito. Este também é um espaço onde eu me encontro comigo mesmo. O meu estado de espírito tem muito a ganhar com o trabalho que eu faço. Se me perguntassem o que fazia se me saísse o euromilhões eu dizia que fazia exatamente o mesmo. Adoro o meu trabalho e não o trocaria por mais nada.

Qual a zona do país, a seu ver, melhor para fotografar?

Há duas zonas em Portugal que são mais ricas em termos de biodiversidade: é o Nordeste Transmontano, temos o Parque Natural de Montesinho e a zona do Douro Internacional, por exemplo, e depois temos outra grande zona é o Alentejo.

Colabora com a revista "National Geographic". Como começou essa colaboração e como descreve essa experiência?

Gosto muito de colaborar com essa publicação. Fiquei a trabalhar com a revista em 2003, tendo começado a fazer propostas sobre fotografia da natureza e sobre zonas que considero importantes em termos de ecossistemas. Um dos primeiros trabalhos que realizei foi sobre as zonas das salinas em Aveiro e depois mais tarde fiz um outro sobre a importância do sobreiro. Tenho particular apreço por escrever histórias onde o Homem tem um papel importante. Existe uma ideia generalizada de que a natureza tem de existir sem o Homem. Mas há muitos casos em que este é muito importante para os ecossistemas, em que os campos, por exemplo, são bem tratados e atraem mais biodiversidade. Gostava de escrever para mais revistas, mas há pouco espaço no mercado para nós enquanto freelancers podermos publicar artigos sobre natureza. Quando colaboro com uma revista sou eu quem escreve os textos, pois também sou jornalista e já trabalhei com diversas publicações portuguesas e estrangeiras. O jornalismo surge a par da fotografia, de forma autodidata, sendo que depois fui fazendo algumas formações na área para aprofundar os meus conhecimentos.

Foi um dos fundadores da Quercus. Pode falar-nos dessa experiência?

Para mim foi algo muito gratificante. Éramos um conjunto de jovens cheios de sonhos e achávamos que em Portugal era muito importante que houvesse uma organização nacional que altertasse a população para as causas ambientais e para as questões de conservação da natureza. Fui de facto um dos 12 fundadores da Quercus e foi uma etapa da minha vida que eu muito me orgulho. Durante vários anos estive muito envolvido nesta associação e coordenei alguns projetos. Um deles foi o dos censos da cegonha branca: anualmente andávamos a fazer a contagem de ninhos da cegonha branca numa altura em que a espécie se encontrava muito fragilizada. Todos estes trabalhos estiveram muito ligados à conservação da natureza. Tive uma grande experiência de campo e toda ela foi fundamental para ter sucesso como fotógrafo da natureza.

Qual é, na sua opinião, a importância da fotografia de natureza no panorama geral da ciência?

A fotografia da natureza tem uma grande importância atualmente. Há alguns anos os fotógrafos da natureza não eram muito bem vistos pelos biólogos, pois eles pensavam que nós éramos uns curiosos e que íamos perturbar as espécies. Penso que essa imagem já está completamente ultrapassada. Cada vez mais as pessoas gostam de fotografia da natureza e cada vez mais os biólogos precisam dela para complementar os seus trabalhos. Acho que com o meu trabalho divulguei mais a conservação da natureza do que muitos papers científicos. A minha fotografia chega a publicações como o "Público" e a revista "National Geographic". E os artigos estão muito naquele meio científico. Nós precisamos de chegar ao grande público.

O apoio de biólogos é também muito importante, devido ao conhecimento científico que têm. Ainda há pouco tempo estive a fazer um trabalho e precisei da ajuda de um biólogo que estava a trabalhar com uma espécie e assim pude saber onde é que a espécie estava e qual a melhor altura para fotografar. Este tipo de informações é fundamental. 

Quais são as maiores dificuldades que enfrenta ou que enfrentou nesta atividade?

A primeira dificuldade é o facto de trabalharmos por conta própria, o que não é fácil. Temos uma taxa fiscal alta em Portugal e as empresas, sobretudo as estatais, demoram muito tempo a pagar. Nunca sabemos o dia de amanhã.

Os principais problemas são então a inconstância da profissão, o pouco mercado editorial para este tipo de trabalhos e a perturbação humana nos ecossistemas, o que ameaça algumas espécies. As pessoas têm medo que andemos a fazer mal aos animais. Têm muita insegurança e as coisas não estão tão fáceis como alguns anos atrás.

Que projetos tem para o futuro?

Estou a trabalhar num novo livro que conto que esteja pronto para o final do ano. Trata-se de um trabalho editorial que de certo modo irá abranger Portugal de Norte a Sul e esse vai ser precisamente o título da obra. Quero fazer um livro em português e em inglês que sirva de imagem do nosso país para qualquer pessoa estrangeira que queira comprar um livro sobre Portugal. Tenho outros projetos editoriais na área da colaboração com revistas. Estou a desenvolver também novos trabalhos com algumas espécies que já fotografei o ano passado e que este ano vou continuar a fotografar. Vou continuar na zona do Salreu a trabalhar por exemplo com a Garça Vermelha, que tem vindo a aumentar ao longo dos anos. Todo este ecossistema está ligado à parte agrícola da zona. O facto de os agricultores estarem a abandonar a zona pode comprometer o ecossistema. Toda a parte agrícola é muito importante para aquele local. 

 

Na foto: Alfaiate (Recurvirostra avosetta) 

Foto: João Nunes da Silva

 

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