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© Karolinska Institutet
Artigo
Publicado em 10/10/2014 por Isabel Pereira

Correr, nadar ou pedalar: todas estas atividades podem ajudar a prevenir a depressão. Um grupo de investigação do Karolinska Institutet (Suécia), liderado pelo português Jorge Ruas, descobriu um mecanismo induzido pelo exercício aeróbio que previne sintomas depressivos causados pelo stress.

A perda de um familiar próximo, aliada à dificuldade em entrar no mercado de trabalho após terminar o ensino superior – este foi o cenário que levou Érica Reis até à depressão. Trata-se de um caso entre os mais de 350 milhões de afetados por este transtorno psiquiátrico em todo o mundo (dados da Organização Mundial de Saúde).

"Não queria sair de casa, não queria estar com ninguém e não conseguia dormir", recorda a jovem de 31 anos. Após consultar um psiquiatra e iniciar o tratamento com antidepressivos, Érica resolveu fazer algo por si: começou a frequentar o ginásio.

Com Andreia Ferreira aconteceu algo semelhante. Um dia a dia demasiado agitado e exigente, com muitas preocupações profissionais e familiares, arrastou-a para a depressão. Foi, também, de sapatilhas e fato de treino que encontrou ânimo para "correr com a doença".

Melhor humor, mais energia, melhoria das capacidades cognitivas, e uma sensação de relaxamento, são algumas das mais-valias da prática de exercício físico que Érica e Andreia salientam. O efeito benéfico do desporto em pacientes com depressão está amplamente documentado na literatura, mas pouco se sabe sobre os mecanismos que o explicam. Jorge Ruas e a sua equipa de trabalho no Karolinska Institutet descobriram um processo que ajuda a justificar esta relação.

Cérebro e músculo em comunicação

O grupo "Molecular and cellular exercise physiology" dedica-se, habitualmente, a estudar os mecanismos que permitem ao músculo esquelético [ver glossário] adaptar-se a diferentes situações, como o exercício físico. Neste contexto, já se sabia que "aumenta a concentração de PGC1a1, uma proteína com capacidade de regular a expressão de diferentes genes", explica Jorge Ruas.

Agora, descobriu-se que a kynurenine aminotransferase (KAT), enzima que atua sobre uma substância responsável por sintomas depressivos – a quinurenina, é um desses genes. "Ainda não tinha sido descrito que o músculo podia expressar esta classe de enzimas. Apenas eram conhecidas no cérebro e no sistema imunitário", salienta o investigador.

A quinurenina aumenta no sangue e no cérebro em condições de stress. Em consequência, altos níveis de concentração desta substância no cérebro estão associados a situações de depressão. "As enzimas KAT convertem a quinurenina num ácido sem capacidade de chegar ao cérebro", prevenindo, assim, o seu efeito.

Os investigadores usaram, neste estudo, dois grupos de modelos animais (ratos): uns com a proteína muscular reforçada e outros com músculos "normais". Todos foram expostos a situações de stress (ruído, flashes de luzes e inversão do ciclo de sono), durante cinco semanas. Só os animais com menos PGC-1a1 desenvolveram comportamentos depressivos.

Antidepressivo muscular: o medicamento do futuro?

Para perceber se as conclusões decorrentes do estudo em animais poderiam ser válidas para o ser humano, foi feito um pequeno ensaio com oito indivíduos. "Com três semanas de treino verificamos, de facto, as mesmas mudanças bioquímicas que tínhamos verificado em modelos animais", afirma Jorge Ruas.

Para comprovar este estudo de forma mais robusta, o grupo pretende, assim que tenha financiamento, seguir voluntários com depressão a quem foi prescrito exercício físico.

A par disto, esperam desenvolver químicos para a ativação do PGC1a1, que poderão ser usadas como uma nova classe de antidepressivos. "Além de representarem uma solução para as pessoas que não podem fazer exercício físico, estes químicos não atuariam no cérebro, e, por isso, poderiam ter menos efeitos secundários que os antidepressivos atuais", salienta o português.

Érica Reis e Andreia Ferreira nunca tinham ouvido falar da enzima kynurenine aminotransferase ou da proteína PGC1a1, já os benefícios do exercício, conhecem na primeira pessoa. Érica deixou os antidepressivos após cinco meses de exercício físico regular. Hoje, quatro anos depois, tornou-se instrutora num ginásio, e garante que o desporto foi fundamental para aprender a gerir a depressão. Andreia partilha desta opinião, e garante: "se não fosse o exercício não teria recuperado a minha vida!".

Glossário:

Músculo esquelético – Este tecido muscular constitui a maior parte da musculatura do corpo dos vertebrados. Essa musculatura recobre totalmente o esqueleto e está presa diretamente aos ossos.

Foto: Karolinska Institutet

 

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