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Artigo
Publicado em 4/12/2014 por Joana Gonçalves

A recente proliferação dos cigarros eletrónicos tem sido alvo da preocupação de especialistas, no que à saúde diz respeito. O Ciência 2.0 foi perceber melhor o funcionamento e as consequências desta nova tecnologia, que tem nos jovens o seu público-alvo.

"Comecei a fumar cigarros eletrónicos há cerca de seis meses, para experimentar e porque dizem que são mais saudáveis", revelou João Fonseca. O jovem de 21 anos, fumador desde os 17, admite ainda que o facto de ser permitido o seu uso em qualquer local também foi um fator decisivo na experiência.

Segundo a Associação Portuguesa de Empresas de Cigarros Eletrónicos (APECE) há, em Portugal, 100 mil fumadores de cigarros eletrónicos e 30 milhões na Europa. Com cerca de 360 lojas em todo o país, o setor, praticamente inexistente há um ano, gera atualmente 3 mil empregos diretos e indiretos, com uma faturação de 12 milhões de euros.

Com uma variedade enorme de sabores – desde menta, frutos vermelhos ou baunilha – e de componentes utilizados, tanto na construção dos vaporizadores, como nos constituintes dos líquidos, os cigarros eletrónicos têm conquistado os jovens, que acreditam ter encontrado uma alternativa mais saudável aos cigarros tradicionais.

"Os jovens têm um apelo muito grande, já que o cigarro eletrónico é apresentado como o cigarro que não faz mal, sem malefício para a saúde, para além de ser muito apelativo em termos estéticos e de sabores", explica Carlos Robalo Cordeiro, presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP).

O cigarro eletrónico "é um retrocesso" na luta contra o tabagismo, defende a SPP

Em entrevista ao Ciência 2.0, o médico refere que a SPP encara os cigarros eletrónicos com muita preocupação e até como um retrocesso na luta contra o tabagismo. "Muitos jovens têm começado a fumar através dos cigarros eletrónicos. Embora tenham níveis de nicotina mais baixos, vão começando a criar habituação", indica, alertando para o facto de haver jovens que, depois de experimentarem estes cigarros, começam a fumar os cigarros tradicionais.

Dois meses após se ter iniciado na nova tecnologia, João Fonseca também voltou ao consumo de cigarros convencionais, por "precisar de mais nicotina".

A ausência de regulamentação e o desconhecimento dos componentes exatos que constituem os cigarros eletrónicos são os principais elementos que levam a SPP a desaconselhar o seu uso. "Não conhecendo, não havendo regulamentação nem estudos clínicos prolongados, não é possível dizer que fazem menos mal ou se são ou não nocivos", indica Carlos Robalo Cordeiro, acrescentado que "não é suposto inalarmos nada, a única substância que é natural ser inalada é o oxigénio".

Tiago Machado, presidente da APECE, concorda com a necessidade de haver uma regulamentação e certificação do setor, através de uma legislação própria, à semelhança do que ocorre em Espanha, em que se concluiu que o produto não deve ser classificado nem como tabaco nem como medicamento.

"A legislação do tabaco é própria para aquele produto, que possui características próprias e componentes como monóxido de carbono, alcatrão, chumbo, arsénico e metais pesados. E é a combustão destes compostos que provoca um efeito extremamente nocivo à saúde", explica, acrescentando que esse processo e esses componentes não existem nos cigarros eletrónicos.

APECE alerta para a necessidade de certificação

Atualmente não há certificação específica sobre a quantidade de nicotina presente nos cigarros eletrónicos, nem exigência de garantia de procedência ou do rótulo com as substâncias do produto. No contexto da publicidade, não existem limitações específicas em relação à restrição ao consumo por menores de 18 anos e regras que evitem a iniciação tabágica. É por esses motivos que a "APECE tem vindo a sensibilizar os decisores políticos em relação à necessidade de certificação dos produtos", salienta Tiago Machado.

No que à saúde diz respeito, Tiago Machado considera que a informação que tem sido tornada pública "deturpa a verdade", referindo-se ao estudo revelado recentemente, indicativo de que os cigarros eletrónicos contêm até dez vezes mais agentes cancerígenos do que o tabaco convencional.

"É apenas um estudo que refere que há uma substância [formaldeído] que é dez vezes mais cancerígena, não são os cigarros eletrónicos como um todo", salienta, relembrando que "o tabaco tradicional contém centenas de outras substâncias que matam, ausentes no cigarro eletrónico". O presidente da APECE acrescenta que o formaldeído só aparece nos cigarros de alta voltagem (acima de 800 graus), totalmente improvável nos cigarros eletrónicos normais que aquecem a 200 graus.

A APECE recorda ainda o relatório encomendado este ano pelo Departamento de Saúde Pública do Governo da Inglaterra, realizado pela Divisão de Epidemiologia e Saúde Pública da Universidade de Nottinghan, que concluiu que as doses de nicotina presentes nos cigarros eletrónicos não são responsáveis por efeitos negativos na saúde a curto e médio prazo e que o número de não fumadores que começaram a utilizar cigarros eletrónicos é inferior a 1%.

 

Foto: ©flickr/Jonny Williams

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