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Artigo
Publicado em 19/7/2012 por Renata Silva

O que cansa é estar parado. Depois de falar com Carlos Fiolhais que fala da ciência com gosto na voz, percebe-se porquê. Entre muitos projetos e publicações, aos 56 anos, conta ao Ciência 2.0 como se apaixonou pela área científica e pelos livros. Em entrevista, revelou o que o preocupa acerca do futuro da comunicação de ciência no nosso país e o que é necessário mudar, sem se esquecer de revelar um pequeno segredo para quem segue e acompanha o seu trabalho. 

Publicou cerca de 40 livros sobre ciência. Qual ou quais mais gostou de escrever?

Posso dizer que é o primeiro, posso dizer que é o último... A resposta mais honesta é que gosto de todos. Estou mais lembrado do último que se chama “Darwin aos Tiros e outras Histórias de Ciência”, escrito com David Marçal, mas também me lembro bem do primeiro, apesar de ser do início dos anos 90, intitulado “Física Divertida”. Na altura foi um grande sucesso de vendas, para meu espanto, até porque eu era um autor desconhecido: esteve nos primeiros lugares do top 10 de livros e teve edições no Brasil, Espanha e Itália. Muitas pessoas dizem que foi um livro que contribuiu para a opção delas pela ciência, o que é muito gratificante para mim. Desses 40 livros a maior parte não são obras de divulgação científica, mas sim manuais escolares feitos por uma equipa.

A minha intervenção na comunicação da ciência faz-se, portanto, a dois níveis: o do ensino informal, aquilo a que chamamos divulgação da ciência, com livros como “Física Divertida”, “Nova Física Divertida”, “Curiosidade Apaixonada”, “A Coisa Mais Preciosa que Temos”, etc., e o do ensino formal, na escola, onde procuro ajudar os alunos e professores, escrevendo manuais escolares que podem escolher e que são escolhidos. É uma forma de contribuir para a melhoria do ensino e prometo não ficar por aqui...

Tem como objetivo publicar um outro livro? Qual?

O livro “Darwin aos Tiros e Outras Histórias de Ciência” é feito de pequenos textos que percorrem a história da ciência. Falamos de várias ciências, não apenas da Física. Não é verdade que as pessoas não se interessam pela ciência. Compram obras de divulgação da ciência, mesmo nesta altura de crise. O livro, publicado em novembro passado, já teve três edições, pelo que decidimos prosseguir. Os leitores pedem-nos para continuar...

Vou revelar um segredo: eu e o David queremos contar num livro, a sair ainda este ano, histórias de pseudociência, de pessoas que querem passar por cientistas mas não o são, ou de pessoas que são cientistas mas não parecem, histórias à volta das diferenças entre ciência e não-ciência, entre ciência a sério e ciência da treta. A pseudociência é muito abundante no mundo, encontramos por todo o lado muitas coisas que parecem ciência, mas não o são. Coisas do género de movimento “New Age”, espiritualistas que invocam a física quântica sem perceberem nada de física quântica. Queremos ajudar a esclarecer as pessoas quanto ao método da ciência, pois a divulgação de ciência não é apenas transmitir conhecimentos, mas também transmitir atitudes. A atitude de ciência é uma atitude crítica, cética. Queremos fomentar essa atitude que é muito útil nos tempos de hoje. Em tempos de crise aumenta o número dos que nos querem enganar e a ciência é um dos melhores instrumentos para não nos deixarmos enganar.

Como surgiu a escrita de livros sobre ciência? O que o fascina na escrita?

Fiz o meu doutoramento na Alemanha no início dos anos 80, na época gloriosa dos livros de divulgação científica de Carl Sagan, em especial o “Cosmos”, que foi o guião de uma série de televisão. Foram anos muito bons, havia uma grande recetividade do público para as novidades da ciência. Sagan foi uma figura inigualável: ele dizia que a nossa grande aventura é a do conhecimento e que o destino do homem é o conhecer. Nessa altura, surgiram muitos livros e revistas na área, apareceu por exemplo a “Discover”, “The Sciences”, etc. Eu trago essa influência do centro da Europa, numa altura em que Portugal era um país intelectualmente muito fechado, pois não havia o boom da ciência nacional que só surgiria depois. Foi nessa altura que surgiu a editora Gradiva e eu contactei o editor Guilherme Valente, com quem estabeleci uma grande cumplicidade. A nova editora focou muito a ciência, queria levar a aventura e a ambição do conhecimento a toda a gente. A coleção “Ciência Aberta” da Gradiva publicou cerca de 200 livros em 30 anos e isso significa que os portugueses querem a ciência. Foi um projeto que cresceu porque houve e há público para ele. Pode dizer-se que a ciência nessa altura abriu em Portugal.

Dispus-me a ajudar, traduzindo alguns livros, do alemão, do francês e do inglês, e, depois já com a mão treinada, comecei a escrever os meus próprios livros, contando histórias da Física que despertavam interesse nos jovens, pois eu tinha feito um circuito pelas escolas e sabia o que captava a atenção dos alunos. Foi a “Física Divertida”. Um título provocatório, mas até agora ainda ninguém se queixou que a Física não é divertida...

"Faz falta nos nossos jardins-de-infância e no nosso ensino básico um maior contacto direto com a ciência"

Como seduzir os jovens para a Ciência? Que trabalho necessita de ser feito pelas escolas?

Os métodos para interessar e entusiasmar pela ciência podem ser os mais variados. E todos devem ser experimentados. Não serve apenas a imprensa, a televisão, a rádio, a Internet, etc. Tudo serve. A ciência deve aproveitar todos os tipos de media. Mas não há nada como o contacto direto dos cientistas com o público. Se um cientista for a um dado sítio e falar de viva voz às pessoas, estas saberão melhor que a ciência é feita por humanos. Há uma interpelação direta: “olhem para mim que sou cientista, os cientistas não são extraterrestres”. E o “contacto” funciona ainda melhor quando há a possibilidade de fazer demonstrações, de mostrar o lado experimental da ciência.

A experimentação funciona muito bem nas idades mais baixas, a partir dos quatro anos, uma faixa da população muito ávida de saber. Deviam ser feitas mais experiências no jardim-escola e na escola primária, dado que há um apetite extraordinário. Costumo dizer que de pequenino é que se torce o destino! Não quer isto dizer que uma criança vá ter necessariamente uma carreira científica, mas sim ser um cidadão que saiba minimamente o que é a ciência, o que é e para que serve. Isso aprende-se em pequenino, porque depois é tarde.

Faz falta nos nossos jardins-de-infância e no nosso ensino básico um maior contacto direto com a ciência. Muitas pessoas não gostam da ciência simplesmente porque não a conhecem, porque não andaram com ela na escola. Para contribuir para a familiarização com a ciência nas idades mais precoces, fiz uma série de livros intitulada “Ciência a Brincar”, na Bizâncio, que já vai em 10 títulos, nos quais se colocam perguntas e se indicam experiências, com materiais simples e baratos, que dão as respostas. Essa ciência é a brincar, mas a ciência a sério exige que se comece pela ciência que seja a brincar.

Licenciou-se em Física, em Coimbra, em 1978. O que motivou o seu ingresso nesta área?

Decidi só no final do liceu o que ia estudar a nível superior. Por acaso as melhores notas que eu tinha não eram a Física, eram a Filosofia e a Ciências Naturais. Tive ótimos professores a quem devo tudo. Mas não foi através da Física do Ensino Secundário que escolhi a minha carreira. Foi mais através dos livros. Não havia tantos como há hoje, mas já havia livros sobre o cosmos, sobre os átomos, que encontrava nas bibliotecas. A ciência estava à minha disposição nas bibliotecas e foi aí que me enamorei por ela. Percebi que havia muitos mistérios no mundo e que a decifração desses mistérios estava ao nosso alcance, que a ciência não caía do céu aos trambolhões, mas era feita por homens e mulheres e que eu podia ser um deles. Percebi que os átomos, moléculas e cristais que comecei por encontrar na Química e não na Física, onde quase só havia alavancas, roldanas e planos inclinados, também eram do domínio da Física e interessei-me por eles.

Depois, na Universidade, encantei-me pela Física moderna como maneira de descrever a construção atómica e, após terminar o curso, surgiu a oportunidade de ir para o estrangeiro. Escolhi a Física Teórica, talvez por ter mais habilidade para o lado matemático do que para o lado manual, e fiz o doutoramento em Frankfurt. Terminei aos 26 anos, pelo que entre os 6 e os 26 anos não fiz outra coisa a não ser estudar. Vinte anos é o tempo que nos tempos de hoje demora a preparação para uma pessoa ficar de posse das ferramentas que permitem investigar. É muito tempo, é preciso alguma perseverança, mas vale bem a pena. A escola é imprescindível: dá-nos uma bagagem para enfrentar questões e desafios. Os grandes países são ricos porque têm boas escolas.

Se pudesse traduzir a Física numa frase, qual usaria?

Podemos usar uma fórmula simples: é a descoberta do mundo. Como é o mundo? Porque é assim e não de outra forma? Quando é que começou? A Física responde a questões essenciais sobre o mundo. O facto de a Física responder a questões essenciais foi algo que me atraiu e continua a atrair outras pessoas. A Física tem uma relação muito fecunda com outras ciências, como a Biologia. Temos de conhecer as leis gerais de funcionamento do mundo antes de entrar na complexidade da vida. A Física tem a aspiração de descobrir leis que valham em todo o lado. Se eu fosse para Andrómeda por um qualquer mecanismo de ficção científica, por um “buraco de minhoca”, que são túneis no espaço-tempo, estou convicto que não precisaria de aprender nova física. A física em Andrómeda é a mesma que aqui. A Física descobriu que o mundo é só um, que obedece a regras universais que nós podemos conhecer.

“Seria um erro trágico se não alocássemos todos os meios possíveis à ciência”

Há espaço e condições para trabalhar em Ciência em Portugal? Que conselhos dá aos jovens investigadores portugueses?

Claro que há espaço e condições. Há muito mais do que havia na altura em que eu acabei o curso e comecei a fazer investigação. O desenvolvimento da ciência em Portugal nos últimos anos é quase como um Big Bang, para pegarmos numa imagem cósmica: a ciência cresceu e apareceu. Desde que entrámos na União Europeia, em 1986, o número de investigadores aumentou a um número prodigioso. E isso é bom para eles e para todos. Saber é uma riqueza e há mais gente a querer saber e a conseguir saber, trabalhando em vários centros de investigação nacionais.

Mas a ciência tem várias componentes. Não é só fazer investigação, pura e aplicada. A ciência é feita pelos cientistas que descobrem o mundo, mas estes fazem-no em nome da humanidade. Não é um projeto individual mas sim coletivo. Não se trata de a ciência assegurar a sua sobrevivência, mas sim da humanidade assegurar a sua sobrevivência. Nesse sentido tem de haver uma relação forte entre ciência e sociedade, uma relação focada no interesse da sociedade. De posse dos resultados da ciência, a humanidade fica mais habilitada tanto intelectual como materialmente. Com a ciência ficamos mais cultos e conseguimos tornar o mundo mais habitável. Mas para isso é preciso que os cientistas comuniquem aquilo que fazem e descobrem, é preciso que haja não apenas projetos de investigação e desenvolvimento, mas também bom ensino e boa divulgação científica. Só assim os cientistas perceberão melhor a sociedade e a sociedade perceberá melhor os cientistas.

Um conselho aos jovens cientistas? Continuem o bom trabalho, nunca desistam. Façam ciência, apliquem a ciência, ensinem a ciência e comuniquem a ciência.

Tem uma vasta experiência na comunicação de ciência. Quais as perspetivas de futuro para a ciência em Portugal? 

Havendo interesse das pessoas como eu tenho a certeza que há, haverá sempre necessidade dessa comunicação. A comunicação de ciência tem crescido extraordinariamente em Portugal: não só cresceu a ciência, como cresceu a respetiva divulgação. Cresceu aquilo que os anglo-saxónicos chamam compreensão pública da Ciência. Mas temos nesta altura um problema de sustentatibilidade da ciência: não sei se a ciência portuguesa vai continuar a crescer ao mesmo ritmo, receio que haja falta de meios para alocar à ciência. Seria um erro trágico se não alocássemos todos os meios possíveis à ciência. Podemos ter agora problemas económico-financeiros, mas, se abdicarmos de formar jovens na ciência, se abdicarmos de informar o público acerca da ciência – porque no fundo é o público que paga a ciência – , esses problemas agravar-se-ão. A nossa situação ficaria pior. Estamos numa situação económica má e não podemos deitar fora o bebé com a água do banho. O bebé é a ciência: temos de salvar o bebé.

A ciência em Portugal cresceu graças a um forte investimento em bolsas, projetos, equipamentos, centros, mas ela ainda não cresceu o suficiente. Tem um futuro à frente. Se olharmos para os países mais desenvolvidos como, na Europa, a Alemanha ou o Reino Unido, verificaremos que eles são colossos no campo da ciência... Algo que me preocupa muito hoje são os jovens que foram formados e que estão na iminência de irem lá fora para encontrar emprego na investigação. Se o encontrarem até pode ser bom para eles, mas será mau para nós. A ciência feita no país traz benefício imediato. A ciência feita longe traz benefício logo para os outros.  Esse benefício pode chegar até nós, mas será mais tarde e mais caro.

Hoje fala-se muito em crise. Mas não creio que a curiosidade humana esteja em crise, antes pelo contrário, olhamos à volta e vemos tantas questões, sobre o cosmos, sobre a matéria, sobre a energia. Há tantos problemas para resolver que são precisos mais jovens, criativos, com ideias novas, para prosseguirmos no caminho que Sagan tão bem apontou, que é o do conhecimento.

Quais são os seus objetivos para o futuro? Está atualmente a fazer investigação? O que pretende investigar?

Criei em Coimbra o Centro de Física Computacional, que montou e depois adquiriu um supercomputador. Temos vindo a trabalhar na área de modelação de sistemas de moléculas, agregados de átomos e materiais em geral. Fazemos esses sistemas no computador, porque é mais prático e barato fazer isso antes de entrar no laboratório. Hoje em dia programamos nos computadores as leis do funcionamento do mundo e vemos como seria o mundo se montássemos as peças de uma determinada maneira. Isso é apenas parte da investigação que se faz no meu centro. Estou hoje particularmente interessado em saber mais sobre História da Ciência, dado que fui durante sete anos, diretor da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra e escrevi um livro chamado “Breve História da Ciência em Portugal” com a colaboração do meu colega Décio Martins. Percebi que há histórias da ciência portuguesa que merecem ser mais conhecidas. Nós não temos consciência plena do nosso património histórico, não demos ainda a devida importância a alguns cientistas portugueses. Criei, por isso, um grupo nesta área, que se está a desenvolver. Quando estive na Biblioteca Geral, criei bibliotecas digitais. Foi fascinante pegar em grandes obras da cultura portuguesa e colocá-las à disposição de toda a gente.

Criei, por exemplo, uma biblioteca digital de obras históricas da cultura portuguesa que está permanentemente acessível e que chega a todo mundo. Chama-se “Alma Mater” e, neste momento, estamos a alargá-la na área da história da ciência. Não gosto de fazer uma coisa só, gosto de fazer várias, pois, se uma pessoa ficar cansada de uma, não estará ainda cansada das outras. E eu gosto de ter vários projetos ao mesmo tempo e de  trabalhar com várias pessoas em simultâneo, tanto na ciência como na divulgação de ciência. Dirijo também um centro de recursos em Coimbra, o Rómulo - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra. Trata-se de uma infoteca, que reúne não apenas livros, mas vídeos, CD. etc., isto é, tudo aquilo que exista sobre o tema ciência e sociedade. Tem já milhares de títulos e continua a crescer. Gosto de ver as coisas a crescer...  

Além disso estou a gerir programas de educação e de ciência e inovação numa fundação nova que é a Francisco Manuel dos Santos, que fez a Pordata, uma base de dados na Web sobre o nosso país, e que está a fazer vários estudos e conferências úteis para o desenvolvimento nacional. Faço outras coisas, não vou contar tudo agora. Enfim, o que me cansa é estar parado!

 

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