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Publicado em 27/9/2012 por Renata Silva

Dedicado à química, divulgador científico, professor, poeta, interessado no diálogo. São características que traçam o perfil de João Paiva, de 46 anos, docente da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. Não se dedica a apenas um projeto, mas a vários, e explica-os, nesta entrevista, ao Ciência 2.0. 

O seu nome está ligado ao ensino das ciências. O que o fascina nesta área e na química em particular?

Na realidade sempre quis ser professor e ensinar ciências. Aliás, dei aulas durante dez anos no Ensino Básico e Secundário o que constituiu para mim um património pessoal e profissional muito interessante. Antes de entrar na faculdade, tinha dúvidas entre física, química e matemática, que eram as disciplinas que tinha no 12º ano e acabei por ir para química. Mas poderia ter ido para qualquer uma das restantes. Hoje não me arrependo porque a química é também, no domínio das ciências, uma ciência de interface. Está entre a biologia e algumas abordagens da física e, por isso, é muito importante, uma vez que nos explica como é que a matéria funciona. Em suma, vai buscar a outras ciências, de forma por vezes recursiva, conhecimentos, práticas e técnicas.

Tudo o que está a acontecer à nossa volta é química. Nós somos química e portanto a ciência enquanto desenvolvimento de uma linguagem, de tentativa de descrever a realidade, de compreender melhor as coisas, de questionar o universo, é desde logo fascinante em termos pessoais. Depois, estando uma pessoa fascinada por isso, sente um certo desejo de o transmitir a outros. Também a educação em ciência é um processo que não é como outrora, meramente transmissivo, em que os professores debitam matéria e os alunos absorvem, mas é um processo dinâmico, interativo, em que os alunos também constroem o seu conhecimento.

Comecei por trabalhar em educação na área da ciência e hoje em dia dedico-me também à divulgação científica para massas heterogéneas que podem ser alunos ou simplesmente cidadãos interessados, bem como a tentar comunicar de forma motivante e aliciante o interesse pela ciência, que é determinante na qualidade de vida que temos hoje.

Tem estado envolvido em diversos projetos que envolvem a Internet e as Tecnologias de Informação e Comunicação. Qual a vantagem ou vantagens da Internet e das TIC, no geral, no ensino das ciências?

As vantagens parecem-me bastante evidentes, mas devo salientar que é preciso ter um certo cuidado na dose de tecnologia que imprimimos às nossas crianças e aos nossos jovens do ponto de vista educativo em geral, porque, como tudo na vida, se a dose é excessiva, esmaga.

Uma das vantagens, da Internet, por exemplo, é precisamente a ideia do conhecimento dinâmico, ou seja, a informação está sempre a chegar e os alunos não têm que aprender de acordo com o que se fazia há muitos anos, mas de acordo com o que se está a fazer. Também com a divulgação científica é possível promover um ensino e uma aprendizagem bastante mais atualizados e porque a informação pode ser comunicada imediatamente entre pares, permite uma aprendizagem mais colaborativa em que os alunos interagem entre si de forma diferente.

Para além disso também a Internet e o computador permitiriam que houvesse uma aprendizagem mais especializada e mais diferenciada, que cada aluno seguisse o seu ritmo de acordo com as suas potencialidades e com as suas motivações. E isso é possível com a tecnologia e não seria possível num sistema arcaico de ensino, sem computador e com o professor a debitar a matéria para uma massa de carneirinhos que aprendem todos ao mesmo ritmo.

O que falta fazer para cativar os alunos para áreas como a Química ou a Física?

Já tem sido feito um grande trabalho, concretamente em Portugal, nos últimos anos, a nível de divulgação científica e de centros de divulgação. Nem sei mesmo se não estamos numa fase até de racionalizar um pouco e ver se não há redundâncias em Portugal de atividades de divulgação científica, porque elas têm de ser de facto eficazes. Antes de mais, os cientistas têm de gostar de fazer o que fazem. Era interessante que fizessem um esforço de divulgar à comunidade e nos fóruns indicados, os resultados do seu exercício científico, numa linguagem simples e acessível a todos, para seduzir os nossos jovens pela via positiva, não só da importância, mas também do fascínio que a ciência pode representar. E eu não posso cativar esse fascínio se eu próprio, como cientista, não tiver isso sublinhado em mim. Depois os cientistas devem desenvolver também aptidões de comunicação, pois precisam de saber comunicar as suas pesquisas. É um exercício que é feito nos jornais, mas é ainda incompleto. Há também uma ideia que temos de mudar: o cientista não é um obsessivo que só vê ciência à sua frente. Pelo contrário, ele tem outros interesses e horizontes. Estamos num bom caminho, mas precisamos de o intensificar e de o requalificar.

"A religião tem muito a ganhar com o conhecimento científico"

Publicou recentemente, em conjunto com outros docentes, o livro “Ensino Experimental das Ciências. Um Guia para professores do Ensino Secundário. Física e Química”. Pode falar-nos um pouco sobre ele? Como deve ser um laboratório de física e química do Ensino Secundário?

Sou até um pouco suspeito porque na realidade não tenho, em 25 anos de profissão, muita tradição prática em laboratórios escolares, dado que trabalhei mais em simulações computacionais para o ensino. No entanto, sempre entendi a relevância da experimentação em ciência em geral e em física e química em particular. O exercício científico é um exercício de questionamento do universo e o homem precisa de uma espécie de microcosmos, de sistemas, de porções do universo onde possa controlar mais variáveis e onde possa manipulá-las e questionar e manipular a natureza. É isso que se faz num laboratório.

O conhecimento do laboratório de química é um conhecimento tácito, ou seja, só se aprende fazendo e era impossível aprender teoricamente. É quase como tentar formar teoricamente um cirurgião, que tem de fazer constantemente atividade de "mãos na massa".

Este livro tenta ser uma ferramenta para suportar os professores de mais conhecimentos e aptidões de modo a lidarem melhor com o laboratório, não só no sentido técnico, mas também no sentido de entenderem melhor a forma como se faz ciência e como a parte experimental é fundamental. Esperamos que este livro possa ser um contributo para os professores fazerem de forma mais motivada, mais competente e mais sustentada a incontornável experimentação em física e química.

Para além dos livros publicados especificamente sobre a sua profissão, também escreveu um livro chamado “Sexualidade e Afetos”. É um tema que lhe desperta também interesse? Porquê? Que outras áreas o fascinam para além da química?

Este livro não tem nada a ver com a química. Acontece que sou pai de três filhos, outrora crianças e jovens e agora já adultos, o que motivou o meu envolvimento numa iniciativa em conjunto com a minha mulher, da área da biologia, que consistiu numa série de palestras sobre o tema, que depois passámos a escrito. As questões emocionais e afetivas impulsionaram esta publicação. Compilámos neste livro uma série de diálogos que tivemos com alunos e também com os nossos filhos.

Em relação a outros temas, escrevi um livro recentemente em parceria com o professor Alfredo Dinis do departamento de filosofia da Universidade Católica de Braga que se chama “Educação, Ciência e Religião”. É sobre um assunto que me tem interessado ultimamente, que é o do diálogo entre a ciência e outras áreas do saber e neste caso concreto, o diálogo entre a ciência, a filosofia e a teologia. É um livro com 20 questões e 20 respostas sobre o interface da ciência e da religião. Defende a tese da possível convivência dessas duas áreas, respeitando as metodologias e os objetivos próprios que a ciência e a religião têm. É uma área que me fascina muito e onde há diálogos muito interessantes já feitos e a fazer.

Tenho um certo receio das misturas explosivas entre ciência e religião, das pessoas que usam a ciência para comprovar a religião em certo sentido, sem ter bem claro que ciência e religião respondem a questões diferentes. A ciência responde a questões sobre como é que funciona a natureza e a religião responde a questões sobre o sentido da vida e aí há uma separação evidente. Mas a mesma pessoa pode interessar-se por ambas as áreas.

A religião tem muito a ganhar com o conhecimento científico e com o avanço científico que vai sendo feito porque, dessa maneira, ela pode assumir um caráter dinâmico, que o próprio fenómeno religioso tem. Concretamente, a interpretação da Bíblia e das escrituras ganha com o conhecimento científico novos subsídios para ser reinterpretada e adaptada no dinamismo que, quanto a mim, interessa também à vivência religiosa. Quanto mais ciência melhor religião. Nem sempre foi assim e ainda hoje há algumas resistências. Mas hoje em dia a religião tem uma abordagem mais dinâmica e este convívio entre a ciência e a religião é muito relevante. Por exemplo, a teoria da evolução das espécies de Darwin conferiu, na minha opinião, à religião cristã e concretamente à cultura católica ocidental, embora tenha havido algumas resistências iniciais, desafios novos, que são teológicos, do dinamismo e da evolução que a própria religião e que a leitura das escrituras devem ter.

"A minha grande obsessão é a questão do diálogo, sincero, não preconceituoso com outras áreas do saber"

Na sua carreira profissional o que lhe deu mais satisfação fazer até ao momento?

Se tivesse que eleger, elegia o contacto com os alunos. Interessa-me muito o diálogo com outras áreas do saber, tendo um pé na ciência e tentando aprofundá-la. Tenho algum fascínio por assuntos de fronteira, delicados. A grande obsessão é a questão do diálogo, sincero, não preconceituoso com outras áreas do saber, com outras pessoas, com outras culturas. Nesse sentido abre-se uma perspetiva de que a ciência não é uma área estanque e fechada e que tem grandes possibilidades de diálogo.

É autor também de alguns poemas, num livro que está online sobre poesia e Química. Como surgiu esta ideia de juntar estas duas áreas?

Tenho um certo gosto pela poesia já prévio à ciência. É muito curioso. A poesia sobre ciência começou com uma brincadeira, quando fiz algumas adivinhas para os alunos. Depois achei que poderia fazer alguns exercícios mais elaborados de misturar a poesia com a química e há aí algum sentido de sedução pela química, a pretexto da poesia e há alguma sedução também pela poesia e pelo gosto do jogo de palavras, pela comunicação e pela semântica. Tenho feito algumas sessões em escolas e com outros públicos com esses poemas que têm a sua graça e ainda estou a avaliar essa experiência. Tem sido engraçado e interessante. E a poesia pode ser uma das muitas formas de comunicar ciência. Não há qualquer dúvida sobre isso.

Se tivesse que resumir a química a uma palavra ou a uma frase, como resumiria? Ou até mesmo se pudesse resumir a química num poema…

Tenho vários poemas sobre essa questão. Mas fascina-me em particular na química a palavra transformação e as consequências que ela tem no sentido existencial e de atenção ao dinamismo e à evolução da vida, porque parar é morrer. Esse dinamismo da vida e do questionamento está muito traduzido na Química que está muito atenta às transformações.

Aos 46 anos, o que ainda lhe falta fazer? Que projetos para o futuro?

É uma fase de vida muito interessante em que me sinto razoavelmente confortável com o que tenho. Ambiciono fazer mais e melhor, mas sinto-me ao mesmo tempo muito satisfeito com o presente. Do ponto de vista formal, não tenho assim nenhum sonho concreto por resolver. Há aquele sonho de plantar a árvore, escrever o livro e ter um filho e esse assunto tenho consumado, até porque me interesso por práticas agrícolas e tenho três filhos também, mas, fora esta brincadeira, sinto-me satisfeito com o ritmo de coisas que estou a desenvolver. Concretamente, o aspeto que gostava de desenvolver mais, é a relação com os países em desenvolvimento nomeadamente os do continente africano e com o Brasil. Estou também envolvido em alguns projetos desses na Universidade do Porto. No entanto, o que gostava ainda de fazer era eventualmente colocar nesses países alguns dos jovens futuros professores de ciência que estão a sair da faculdade para poderem exercer lá a sua função, pelo menos durante alguns anos.

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Na sua opinião, o que é necessário melhorar no ensino das ciências em Portugal?

O docente da FCUP fala do uso exagerado do computador do ensino e da necessidade de uma maior atenção por parte dos educadores e professores

João Paiva explica e exemplifica a relação da Química com outras ciências, como a Biologia e a Matemática

O docente gosta particularmente do diálogo das ciências com outras áreas do saber

A poesia ligada à ciência é uma das áreas que fascina João Paiva

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