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©Flickr/Matthew Vandenbossche
Artigo
Publicado em 17/12/2012 por Adelaide Costa*

O efeito placebo corresponde a um efeito não específico, isto é, a um efeito que não deriva directamente da ação farmacológica de um dado medicamento. Este efeito é o que resulta, por exemplo, da administração de uma substância farmacologicamente inerte.

Exemplifiquemos: podemos medicar, durante algum tempo, um grupo de indivíduos deprimidos, com um comprimido contendo o princípio ativo de um antidepressivo e obter, aquando da avaliação, um outcome positivo isto é, uma significativa melhoria.

No entanto, podemos administrar a um outro grupo, com características clínicas semelhantes, um comprimido que mais não seja que um rebuçado ou uma vitamina, sem potencial efeito no humor. Este último grupo, informado de estar a receber tratamento com um fármaco antidepressivo, poderá apresentar, também, melhoria clínica.

Este será o tal efeito placebo: efeito da recuperação espontânea, efeito direto da sugestão? Os estudos sucedem-se, à procura de explicações cada vez mais sólidas.

O placebo pode interpretar-se segundo várias teorias, apesar de nenhuma ser ainda absolutamente consensual. Há quem o explique através do modelo opióide, no qual o efeito resulta de libertação central de endorfinas. Outros autores falam do modelo do condicionamento, em que os benefícios obtidos quer pela toma da medicação quer pela própria relação com o terapeuta poderão condicionar respostas ao placebo. Uma outra perspectiva, já mais neurobiológica, será o condicionamento do circuito cerebral da recompensa, explicando o efeito placebo nos indivíduos com dependências. Há ainda o modelo das expectativas: o efeito placebo como resultado das expectativas positivas, e o efeito nocebo, o que resulta das expectativas negativas. Este último modelo poderá explicar a ocorrência de sintomas adversos (efeito nocebo) por exemplo, numa situação de “sobredosagem” de placebo.

Em Psiquiatria, a expectativa positiva, em relação ao tratamento será, talvez, o mais importante fator para o sucesso do efeito da substância placebo. A doença mental é cada vez mais também compreendida segundo uma perspectiva biológica. Sabe-se que, nos estados depressivos, ocorrem alterações cerebrais, por exemplo neuroquímicas, responsáveis pelas alterações do humor e outros sintomas. Nalguns ensaios clínicos, comprovou-se que o efeito placebo contribui para o efeito dos fármacos antidepressivos. Noutros estudos, indivíduos deprimidos “tratados” com placebo apresentaram, tal como os medicados com antidepressivo, alterações eléctricas e metabólicas a nível cerebral (electroencefalograma e tomografia por emissão de positrões). Doentes medicados com placebo, nalgumas avaliações neuropsicológicas, apresentaram até uma maior velocidade de processamento da informação, portanto, melhoria das funções cognitivas.

O que os investigadores têm concluído é que a administração de um placebo não tem necessariamente que ser considerada uma ausência de tratamento, ainda que não se recorra a medicação farmacologicamente activa. As crenças e expectativas podem exercer um efeito de modulação da atividade neurofisiológica e neuroquímica em determinadas áreas cerebrais, sobretudo as envolvidas na perceção, movimento, dor e diversos aspectos do processamento das emoções. As alterações cerebrais positivas, resultantes das psicoterapias, têm já sido bastantes divulgadas.

Mais recentemente, o “enhancement mental” (entenda-se “melhoria” mental), compreendido através da fé e da religião, da meditação e de formas alternativas de tratamento, tem sido alvo de um interesse científico considerável. Por exemplo, têm sido realizados estudos de neuroimagem, no sentido de justificar o recurso à automeditação, como forma de “autocura”, tendo-se verificado também alterações cerebrais, que resultarão dessa prática.

Cada vez mais se acredita que o placebo poderá induzir a alteração da atividade neuronal. Assim sendo, e se o efeito for positivo, por exemplo no humor, poderia eventualmente fazer-se recurso do placebo, para intervir clinicamente nos estados ansioso-depressivos. Efetivamente, o seu uso nos ensaios clínicos está devidamente regulamentado e aprovado em diversas situações. Mas e na prática clínica corrente? Se a administração de uma substância inerte tiver um efeito positivo na saúde mental do doente, será a mesma condenável, do ponto de vista ético? Tão frequentemente sugerimos aos nossos doentes a prática de exercício físico, de yoga, de outras técnicas de relaxamento; incentivamos a própria convivência social, como forma de reduzir a ansiedade e melhorar o humor... E acreditamos que, mesmo desprovidos de efeito terapêutico farmacológico, podem ser benéficos para o doente. Estranhamente, estes não parecem trazer à discussão grandes questões bioéticas.

O que penso é que será muito difícil, e até pouco inteligente, tentar abolir todo o efeito placebo da nossa prática clínica, nomeadamente em saúde mental. Pois se a própria relação médico-doente poderá, como temos lido, condicionar a resposta mental do doente… Entendo mesmo que será impossível pensar a prática médica, à luz dos conhecimentos actuais, sem contemplar também o efeito placebo, pois que ele resulta de intervenções de diferentes naturezas, não necessariamente farmacológicas, e bem menos polémicas…

*Docente de Psiquiatria da FMUP

Foto: Flickr/Matthew Vandenbossche

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