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© Pedro Salgado
Artigo
Publicado em 16/9/2013 por Isabel Pereira

Pedro Salgado é conhecido como o responsável pela nova geração de ilustradores científicos em Portugal. O ilustrador considera-se um sortudo por poder aliar o gosto pela ciência ao gosto pelo desenho. O seu maior desejo? “Que a ilustração científica continue a crescer!”

É licenciado em Biologia, como surgiu o seu interesse pela ilustração científica?

O meu perfil acaba por ser muito próximo da grande maioria dos ilustradores científicos: são quase sempre pessoas que se interessam quer pela área do desenho quer por uma área científica. Eu fiz Biologia mas gostava de desenhar desde miúdo. Depois, já como biólogo, comecei a fazer investigação e acabei por perceber que havia essa especialização em ilustração científica nos Estados Unidos. Quando me apercebi disso foi praticamente imediato: abandonei o que estava a fazer e fui para os Estados Unidos, com uma bolsa Fulbright, e foi lá que a minha vida mudou. Fiz o curso, e depois voltei para Portugal e comecei a criar escola. Portanto foi um interesse que já vinha de trás, mas foi depois de já ser biólogo que profissionalmente entrei nesta área.


Teve de procurar respostas no estrangeiro, quis sempre voltar?

Eu fiquei lá fora uns 8 anos, mais ou menos, embora sempre com ligação a Portugal, onde vinha dar workshops e cursos. Mas a ideia foi sempre voltar e começar a formação aqui, sobretudo numa área como esta em que o panorama estava completamente deserto quando eu comecei.

O que costuma ilustrar?

A maior parte do trabalho de ilustração científica que tenho feito acaba por estar ligado à minha área de especialização na Biologia - a biologia marinha e os peixes em particular. Em termos científicos eu já dominava a área e por isso o meu trabalho de ilustração científica foi se encaixando aí. Mas, no fundo, a filosofia da comunicação científica em termos visuais, acaba por ser muito semelhante em qualquer área - criar imagens que transmitam conhecimento, seja para os especialistas ou para o público geral.

Qual o mercado para essas ilustrações?

Varia muito! Tanto pode ser para um mercado mais científico, para o mercado da divulgação para o grande público, ou para outras áreas. Eu esperava que fosse mais ligado à comunicação científica, dentro da comunidade científica, mas destacam-se as áreas mais voltadas para a divulgação para o público geral, como é o caso do Oceanário de Lisboa (com o qual mantenho uma relação de trabalho há bastante tempo). Depois têm surgido outras coisas que eu no início não esperava muito. Estou a falar por exemplo da ilustração de selos, em colaboração com os CTT, com temas alusivos à história natural, ao ambiente, à biologia; ou num dos últimos trabalhos que fiz, para uma embalagem de sal marinho na qual gostariam de ter uma componente sobre os animais e as plantas da Ria Formosa…

Consegue distinguir um ou dois trabalhos que lhe deram mais gosto fazer?

É sempre difícil escolher, é como se estivesse a escolher entre filhos… Mas algumas das ilustrações fiz porque tinha de ser, porque me interessava em termos profissionais, outras deram-me um gozo particular. Os selos em geral foram coisas que deram muito gozo fazer, até porque me deram muita liberdade de ação - muitas vezes era eu que escrevia os textos e escolhia o que retratar, dentro de um tema. Também destaco o trabalho para o Oceanário e outros aquários porque está especificamente dentro da minha zona de interesse na biologia.

"Tenho trabalhos que demoraram mais de dois meses a fazer!"

Como é o processo criativo, é preciso muita pesquisa prévia?

Isto envolve sempre muita pesquisa prévia… Este trabalho exige criatividade, ao contrário do que muita gente pensa, mas é uma criatividade mais a pensar nas estratégias visuais de colocar determinado tipo de informação, num formato adequado e para um público específico… Para qualquer coisa que eu faça no domínio da ilustração científica é fundamental um trabalho de preparação: muitas vezes envolve o contacto com especialistas, outras vezes é preciso estudar e validar todo o processo em bibliografia. Há que garantir o rigor!

Quanto tempo pode demorar uma ilustração?

Tenho uma série de ilustrações que foram feitas numa tarde, e tenho trabalhos que demoraram mais de dois meses a fazer. Aí no meio poderia quando muito encontrar uma média: 3/4 dias a uma semana. Depende um pouco da exigência daquilo que se pretende e das técnicas utilizadas.

Que caminho tem feito a ilustração científica em Portugal?

Eu acho que está de muito boa saúde, pelo menos se compararmos com panorama como eu o encontrei quando comecei, em que o termo ilustração científica era tido como uma curiosidade na comunidade científica, e muitos nem sabiam de que se tratava… Tem-se desenvolvido muito nos últimos 20/25 anos, com uma série de atividades de formação que eu comecei, e que depois os meus alunos foram dando continuidade. Hoje em dia há uma série de cursos, de cadeiras ligadas a mestrados, de workshops um pouco por todo o país, e existe desde há 5 anos o mestrado de ilustração científica que está a formar profissionais com uma base de aprendizagem mais continuada, o que faz com que a área tenha uma boa expressão cá em Portugal.

Sente-se responsável por esta evolução?

Quando eu comecei não havia praticamente ninguém… De certa forma sou responsável pelo início da escola de ilustração científica mais recente, desta nova vaga. Eu dei o empurrão inicial, mas depois várias pessoas continuaram a fazer este trabalho, para que hoje seja uma área bastante conhecida, quer nos meios científicos, quer nos meios artísticos.

É coordenador de um mestrado de ilustração científica. Que tipos de pessoas procuram esta formação?

Parte dos meus alunos de mestrado vêm da área científica e depois aprendem mais especificamente técnicas artísticas e estratégias de comunicação visual, e outros vêm as áreas artísticas e acabam por tomar contacto com métodos científicos, e com uma série de questões ligadas à ciência com que eles não estão familiarizados. Esse processo acaba por ser um processo de formação mista. É indispensável um ilustrador científico ser alguém profissionalmente bivalente, que domine as duas áreas. Os dois caminhos são válidos e estou convencido que não é um dos percursos que traz mais resultados que o outro… Conheço ilustradores de excelência e alguns deles vieram das ciências, outros vieram das artes. Não creio que esteja aí a distinção dos mais competentes… Os mais competentes são aqueles que sabem equilibrar as duas coisas, e estar em atualização constante.

Há muita procura?

Sim. Posso dar o exemplo de um curso que abri recentemente no Museu de História Natural: as inscrições abriram há uma semana atrás e praticamente está lotado. Estamos a falar de 40 pessoas numa semana!

A ciência só sobrevive se houver comunicação!

Na sua opinião qual é a importância da ilustração científica para a própria ciência?

A ciência só sobrevive se houver comunicação! Não se pode fazer ciência sem comunicar, dentro da comunidade científica e para o público em geral. E a comunicação de ciência sem uma componente visual fica claramente a perder… A velha frase “uma imagem vale por mil palavras” aplica-se aqui perfeitamente. Pensemos, por exemplo num manual de Ciências Naturais – se nós retirarmos a imagem o interesse do aluno será muito menor.

Sente-se realizado com o seu trabalho?

Completamente! Esta atividade consegue reunir os meus principais interesses desde criança, por isso posso considerar-me um sortudo. O desenho e a maneira como, através dele, se pode ver mais longe e de uma forma mais profunda, dão-me muito gozo.
Poder estar a olhar para um organismo interessante e dedicar tempo a desenhá-lo para o entender melhor, descobrindo coisas que sem o desenho nunca descobriria é muito motivador. E penso que vai continuar a ser, a minha vida toda!

O que lhe dá mais prazer hoje em dia, a ilustração ou o ensino?

O ensino trouxe-me algo que eu não esperava, que foi o contacto com pessoas que querem muito aprender sobre ilustração científica. Gosto muito de ensinar, fico muitíssimo orgulhoso com o sucesso dos meus alunos e é algo que não quero largar. Mas a formação tem ocupado, ultimamente, mais tempo do que desejaria…
A minha ideia foi sempre haver um equilíbrio entre o desenvolvimento do meu trabalho como ilustrador e a formação. Um dos meus objetivos é recuperar algum tempo para o meu trabalho. Quero continuar a produzir, evoluir e a superar-me.

Que desejos tem para o futuro?

Sobretudo continuar com esta paixão por aquilo que faço! Continuar a desenhar muito, continuar a ter possibilidade de fazer projetos interessantes… E que a ilustração científica continue a crescer e a ser útil!

Na imagem: Panda (trabalho em grafite e aguarela)

Imagem: Pedro Salgado

 

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