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© Ricardo Lourenço
Artigo
Publicado em 15/4/2012 por Renata Silva
Ricardo Lourenço, 29 anos, é quem se segue neste espaço de entrevistas sobre fotografia de natureza. Apaixonado pelas aves, não muito fáceis de fotografar, não deixa de dar a conhecer outros animais, como os répteis, por exemplo. Professor de formação, é persistente e autodidata e foi aprendendo pela internet e pela experiência a conseguir boas fotografias. 
 
Quando e como surgiu a sua paixão por fotografia?
 
Comecei a interessar-me por fotografia há cerca de cinco anos, quando estava a tirar o curso. Precisei de imagens para alguns trabalhos. E, como qualquer pessoa, comprei uma máquina digital compacta pequena e comecei a fazer alguns trabalhos fotográficos. Inicialmente fazia um pouco de tudo. Mas, como nasci e vivi grande parte da minha infância no campo, em contacto com a natureza, sempre tive essa vertente de querer fotografar os animais que me acompanharam ao longo da minha vida, sobre os quais sabia muito pouco ou desconhecia. E então o meu interesse cresceu e aliei as duas coisas. Quis conhecê-los de mais de perto, fotografá-los e registá-los. Aproveitei a compra da máquina, neste caso para uma necessidade profissional, e comecei também por hobbie a fotografar a natureza. Inicialmente, era tudo muito aleatório, fotograva o que apanhava. Não tinha conhecimentos técnicos praticamente nenhuns. A única coisa que me motivava era a curiosidade que sentia e a minha motivação para fazer mais.
 
O que lhe dá mais prazer fotografar?
 
Inicialmente dediquei-me muito à fotografia de aves e efetivamente em termos de fotografia é aquilo que eu mais gosto de fazer. Foi a minha primeira paixão e é o tipo de fotografia com o qual me sinto mais à vontade. As aves são as mais desafiantes de todo o tipo de animais e por isso são aquelas que me dá mais prazer fotografar. Há um número bastante grande de aves em Portugal e cada espécie tem a sua técnica e os seus métodos para se conseguir fotografar. Passo muito tempo a pesquisar, a estudar os animais, as aves, os seus comportamentos, os seus habitats, a alimentação. Temos de ir para o campo e passar muitas horas fechados num abrigo para conseguirmos captar uma imagem. Quando conseguimos, somos premiados e este prémio ainda sabe melhor quando há todo este trabalho por detrás. 
 
Quais os requisitos para se ser fotógrafo da natureza? Que características tem de ter?
 
Um fotógrafo da natureza tem de ser determinado. Se lhe colocam um desafio e ele é confrontado várias vezes com o insucesso, quando passa oito horas enfiado num abrigo, ele tem de ser determinado se não vai desistir à primeira. Tem de ser bastante trabalhador. Só consegue excelentes imagens da fotografia da natureza quem trabalha muito, quem se preocupa com os pormenores. Tem de se ser minucioso. Tem de ter técnica, mas o trabalho, a determinação e a paciência são as principais características que tem de ter um fotógrafo da natureza.
 
Quais as maiores dificuldades que enfrenta enquanto fotógrafo da natureza? 
 
As dificuldades têm a ver com as condições climatéricas. Mas há outras dificuldades inerentes a propriedades privadas. Às vezes as pessoas não entendem por que é que nós vamos lá e que não vamos fazer mal nenhum, que só queremos captar aquela espécie. No terreno, as grandes dificuldades têm a ver com o tempo que demoramos a carregar o material (máquinas fotográficas, as lentes que são pesadas, os tripés, as tendas camufladas), por dois, três quilómetros, dependendo do local onde queremos ir. E se for de noite, como para mim tem de ser a maioria das vezes, ainda pior, por causa dos caminhos acidentados e das condições climatéricas adversas que possam existir. E depois são as horas passadas no abrigo. Tentei este ano fotografar abetardas e deitei-me numa seara alentejana às duas da manhã e lembro-me que o termómetro apontava menos de três graus negativos e eu passei no saco cama duas ou três horas à espera das aves. 
 
Qual o animal que achou mais desafiante de fotografar? Qual o mais difícil?
 
Já tive projetos em que fotografar uma ave era de tal forma desesperante que pensei em desistir muitas vezes. Mas, por exemplo, estive há pouco tempo a tentar fotografar os Grous, que são aves que existem no Alentejo e estive vários dias num abrigo a tentar fotografar essa ave e ela não colaborava. Estava tudo organizado de modo a conseguir fotografá-los e eles não passavam à frente do abrigo e não o conseguia de maneira nenhuma. Passado três ou quatro vezes, com várias horas passadas dentro do abrigo, lá colaboraram. Foi dos desafios mais difíceis que eu tive. Outro animal muito difícil de fotografar foi a Cegonha Negra, uma das espécies mais vulneráveis e muito pouco comuns em Portugal. São aves muito pouco tolerantes à presença humana. Passei também várias noites a dormir dentro de água, com o abrigo por cima, sentado numa cadeira, com a água pelo peito e passei noites, porque tinha de entrar de noite para elas não me verem, para que quando elas passassem por aquele local eu estivesse já dentro do abrigo. Tive sucesso, mas só ao fim de três ou quatro fins-de-semanas. Havia sempre qualquer coisa que as espantava. Ou era um pescador que chegava, e elas espantavam-se, ou numa estrada ali perto um carro com um furo e elas fugiam, ou as ovelhas que iam beber água.
 
Que cuidados temos de ter quando fotografamos animais?
 
O que nós temos de fazer, e isso faz parte da nossa ética, é não perturbar os animais. É óbvio que há situações em que os animais sentem a nossa presença e nós questionamo-nos até que ponto não os estamos a perturbar, mas a perturbação é mínima. A fotografia em ninhos é polémica, eu não me lembro de ter fotografado nenhuma espécie num ninho. Há pessoas que defendem que as espécies podem rejeitar o ninho. Há que ter muito cuidado com este tipo de trabalho. No entanto, penso que a tenda camuflada não perturba nada a ave. Hoje em dia existe tanta presença humana e tantas características humanas na paisagem que eles não estranham nada. 
 
Construiu o que chama de abrigo flutuante. Pode descrever-nos o que é e como foi construi-lo?
 
Para se aproximar de aves aquáticas só existem duas maneiras ou com um abrigo normal ou com um abrigo deitado, para fotografar ao nível das aves. Sabia que era muito limitativo, que só ia conseguir fotografar as aves ali, com aquelas condições de luz e elas normalmente são pouco tolerantes e andam um bocado mais escondidas. Decidi então construir o hidrohide, ou abrigo flutuante, com base em imagens feitas no estrangeiro. É uma plataforma onde nós pousamos a máquina, andamos dentro desse abrigo, mas dentro de água. Tem uma cobertura camuflada que nos tapa. Serve para nos podermos aproximar mais das aves para conseguirmos muitas variantes de luz, em contraluz, com luz frontal, natural. As fotografias no hidrohide nunca são iguais, porque os ângulos são diferentes e a luz está sempre a mudar. Quem muda é o fotógrafo e não a ave. É uma área e uma técnica que está a crescer muito. As aves pensam que as ameaças vêm pelo sol ou pelo ar e não têm predadores aquáticos. Acham que tudo o que se aproxima pela água, não é perigoso para elas. 
 
Qual é, para si, a importância de um fotógrafo da natureza no panorama geral da ciência?
 
Há um conservacionista senegalês que se chama Baba Dium que tem uma frase muito interessante: “No fim, vamos conservar o que amamos, vamos amar o que compreendemos e vamos compreender apenas o que nos mostrarem”. Um fotógrafo da natureza para além da arte que está inerente à fotografia, também tem essa responsabilidade científica, para com a sociedade e para com as espécies que fotografa. O Homem só costuma temer aquilo que desconhece e muitas das vezes alguns animais são perseguidos pelos mitos e pelas crenças que são infundadas e resultam do desconhecimento em relação às espécies. Nós fotografamos o pormenor, os comportamentos, captamos momentos únicos da vida selvagem. O facto de as pessoas conhecerem estes animais, as aves, os mamíferos, os répteis, faz com que fiquem com uma ideia diferente deles. É essa a responsabilidade que um fotógrafo tem e é bastante importante para a conservação e preservação das espécies. Dar a conhecer aquilo que é belo para que as pessoas os respeitem. 
 
Quais são os seus projetos para o futuro?
 
Tenho um projeto individual que quero alargar com os meus amigos, que é captar imagens únicas no Alentejo selvagem. A ideia é criar uma galeria de imagens que só por si descrevam a nossa fauna, a nossa flora, a nossa paisagem da forma mais bela possível. Tenho projetos de captar determinadas espécies, em determinadas momentos, a curto prazo. 
 
 

 

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