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Artigo
Publicado em 4/12/2013 por Renata Silva

Quando pensamos na Antártida, um continente gelado, imaginamos pinguins ou focas. Mas, neste local, há muito mais a descobrir sobre e para além deles. É onde se pratica a ciência polar. Para perceber melhor este conceito, o Ciência 2.0 falou com José Xavier, um dos vários cientistas polares portugueses que por diversas vezes visitou este lugar longínquo em que os únicos "habitantes" são curiosos animais.

Ciência Polar. Pode explicar-nos em que consiste?

A ciência polar corresponde à investigação que decorra nas regiões polares, seja em biologia sobre os animais que lá vivem, ao gelo, à geologia, à medicina, entre muitas outras áreas, e também sobre questões científicas pertinentes como as alterações climáticas, o degelo ou o aumento do nível médio da água do mar.

Como surgiu o seu interesse pela ciência polar?

Sempre gostei do mar. A convite de um professor da Universidade, quando estava tirar o curso em biologia marinha, fui para Cambridge estudar com um cientista que fazia investigação na Antártica. Neste momento estou a investigar o efeito das alterações climáticas nos animais marinhos (pinguins, focas e albatrozes) que vivem na Antártica (região que inclui o continente Antártida e o Oceano Antártico) e perceber o que poderá vir a acontecer a estas partes do planeta no futuro.

Pode descrever-nos a primeira vez que chegou à Antártica e teve contacto com os animais dessa região?

Chegar à Antártica, depois de vários dias de navio, foi uma sensação incrível. Apesar de estar exausto, e depois de dias de tempestades no Oceano Antártico, esperava ver só gelo, muito frio e pouco mais. Puro engano! Estava um dia de sol, com icebergues lindíssimos e vi logo albatrozes no ar, pinguins e baleias na água... o Oceano Antártico é um oceano a transbordar de vida! Uma sensação de estar no meio de um jardim zoológico, mas és tu aquele que os animais querem ir ver!

Que características tem este continente?

A Antártida tem o tamanho da Europa, possui águas a temperaturas médias de 0 graus Celcius (as nossas águas em Portugal estão a 15-18 graus), é o continente mais alto (a média de altura é de 3 000 metros), mais frio (o mais frio registado foi 89 graus Celcius negativos) e o mais ventoso do planeta. Na Antártica vivem apenas cientistas (não existem povos indígenas) que existem em bases científicas. Este continente é regido por um Tratado – o Tratado da Antártida - que defende que este continente não pertence a ninguém. Deverá devotar-se à ciência e à paz! Devido a estas características, mais de 50 países colaboram entre si, incluindo Portugal, em projetos internacionais e interdisciplinares, abordando questões científicas que tenham implicações no nosso planeta, como as que já referi.

"Os albatrozes e os pinguins podem não se adaptar às alterações climáticas"

Uma das suas investigações relaciona-se com a forma como os animais se adaptam às alterações climáticas. Quais as principais conclusões a que chegou?

Um dos mais recentes artigos científicos mostrou que animais, como albatrozes e pinguins, podem não ser capazes de se adaptarem às alterações climáticas e que algumas das suas populações já estão a sofrer com isso...

Em que projetos está a trabalhar atualmente?

Estou com um projeto que pretende perceber o funcionamento e estrutura do Oceano Antártico como um todo e prever o que pode acontecer no futuro. Tal será possível avaliando as implicações na conservação dos animais que lá vivem, a gestão dos recursos marinhos que lá vivem e compreender o que podemos fazer para uma exploração sustentável desses recursos. Tudo isto está a ser feito em colaboração com colegas de mais de 20 países.

Que diferenças encontra na ciência polar desde que enveredou por esta área?

Nota-se cada vez mais a necessidade de colaborar internacionalmente e de relacionar diferentes disciplinas, por exemplo, agora, nos meus projetos, possuo biólogos marinhos, oceanógrafos, químicos, físicos, etc.

"Depois das palestras os alunos ainda me perguntam se era mesmo eu que aparecia nas fotos"

É coordenador das semanas polares, durante as quais se realizam várias atividades nas escolas sobre a ciência polar. Que feedback têm tido por parte dos professores e estudantes que participaram nesta iniciativa?

Em Portugal, os professores e os alunos são fantásticos. Ir a uma escola continua a ser uma surpresa para muitos alunos, pois ainda desconhecem a existência de cientistas portugueses que vão todos os anos à Antártica e ao Ártico fazer investigação. Depois das palestras, ainda me perguntam se era mesmo eu nas fotos! A curiosidade dos alunos é muito grande, pois existe cada vez mais interesse em saber, por exemplo, se os pinguins ou os ursos polares vão desaparecer, se o nível da água do mar vai aumentar ou simplesmente de saber qual a sensação de viver e fazer ciência numa parte extrema do planeta!

Que balanço faz deste programa educativo?

O balanço tem sido muito positivo. Nesta última semana polar, tivemos mais de 10.500 alunos e mais de 150 professores envolvidos diretamente, o que realça a relevância e interesse das escolas. Também fazemos esforços para que os cientistas se desloquem às escolas para falar sobre a sua ciência, mas também comunicamos com outros países, como o Brasil, Angola, Canadá ou Reino Unido, onde fazendo skype calls, mostramos o que de melhor se faz de ciência polar.

Número de cientistas polares triplicou nos últimos 5 anos

O que ainda falta fazer nesta área da educação para a ciência, no caso da ciência polar?

O número de cientistas polares em Portugal triplicou nos últimos 5 anos, devido ao aumento do número de jovens cientistas a entrar nas equipas que fazem ciência polar e aos apoios financeiros. Levar a ciência a todos, particularmente ao público estudantil, é algo ainda difícil, pois a linguagem científica não é fácil de perceber. Como as regiões polares possuem um fascínio próprio, bastando pensar nos pinguins na Antártica e nos ursos polares no Ártico, a mensagem dos cientistas torna-se mais simples. No entanto, é preciso fazer com que mais cientistas façam esta ligação às escolas e melhorem o modo como comunicam a sua ciência. Existe ainda muito por fazer...

Como é viver na Antártica, sendo que muitas vezes é de dia durante 24 horas... Quais são as maiores dificuldades?

Existem vários fatores que tornam a vida de investigador na Antártica complicada. O primeiro é o facto de não existirem hospitais, por isso a segurança é levada ao extremo, o segundo motivo é a necessidade de levar todo o equipamento e alimentação connosco, logo logisticamente é complicado e, por último, é estar longe da família por longos meses (o meu maior período foi de 9 meses seguidos na Antártica, incluindo Natal, Passagem de Ano, Páscoa...)

"O truque é gostar muito daquilo que se faz"

Que conselhos daria a um jovem que esteja interessado numa carreira como cientista polar?

Que estude muito, isto é, que seja bom a todas as disciplinas, pois todas são importantes, desde a Matemática ao inglês; que, na passagem pela universidade se integre o mais cedo possível em projetos científicos, de modo a perceber o que gosta e sobretudo que faça o que mais goste. Para ser cientista é preciso muita dedicação, espírito de sacrifício e muita capacidade de trabalho... mas o truque é mesmo gostar muito do que se faz!

Qual a investigação que lhe deu mais gosto fazer e porquê?

O que mais gosto é a variedade de trabalho que faço. Ser cientista inclui ir fazer trabalho de campo (estudar pinguins claramente é um dos pontos altos), trabalho de laboratório, através da análise das amostras recolhidas, dar aulas nas universidades e nas escolas, supervisionar alunos nas suas teses, coordenar projetos científicos e educacionais, ir a conferências, entre outros, ou seja, é necessário manter o entusiasmo em tudo isso e gostar de tudo...

Qual a importância da prática da ciência polar para o nosso país, em particular?

É uma boa questão. A ciência polar aborda questões relevantes para o planeta como um todo e, consequentemente, para Portugal. Isto porque se o planeta está a aquecer, será nas regiões mais frias que as anomalias vão ser mais óbvias. Por exemplo, eu estudo os efeitos das alterações climáticas sob os animais que vivem na Antártica e estou a desenvolver modelos de como, outros animais, em regiões mais quentes, vão ser capazes de se adaptarem ou não, o que é útil para Portugal. O mesmo se aplica a colegas que estudam o degelo, pois Portugal tem uma longa costa que pode ser afetada pelo degelo que está a ocorrer nas regiões polares. Finalmente, existe um número de métodos e técnicas que são desenvolvidas nas regiões polares, mas que podem ser aplicadas em Portugal, como o caso de peixes desenvolverem proteínas que podem ser úteis para a ciência biomédica.

Que projetos tem para o futuro?

Consolidar a investigação polar que se faz em Portugal, sempre num contexto internacional, e fazer a ligação entre a ciência, educação e legislação aplicada às regiões polares... algo que representa muito trabalho a fazer. 

 

Este artigo deu origem a uma pergunta no quiz de ciência LabQuiz, um divertido jogo desenvolvido pelo Ciência 2.0 para Android e iOS.
Disponível na Google Play:
https://play.google.com/store/apps/details?id=air.ciencia20.up.pt.quiz

Disponível no iTunes:

https://itunes.apple.com/WebObjects/MZStore.woa/wa/viewSoftware?id=937234713&mt=8

 

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