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© Pedro Mendes
Artigo
Publicado em 18/11/2013 por Cláudia Azevedo

Desenhar é a sua vida desde que se lembra. Pedro Salvador Mendes tem uma paixão por animais e isso reflete-se no que faz. Ilustrou o livro “Animais do Jardim Zoológico”, que serve de base à sua tese de mestrado, na área da ilustração científica. Depois do fecho da empresa onde trabalhava e perto dos 40 anos, tornou-se freelancer. Acalenta o sonho de, um dia, retratar um Parque Natural. E há tantos em Portugal à mão de desenhar…

Quando começou a interessar-se pela ilustração e, em particular, pela ilustração científica?

Desde sempre. Eu acordava cedo e ia desenhar. Sempre desenhei muito animais, desde miúdo. Tive a influência da minha avó que me tentava adormecer com livros da fauna. A minha avó acabava por dormir e eu continuava a ver os livros. É uma das memórias que tenho de quando era muito novo.

E depois? Optou por fazer formação na área?

Depois, fui sempre desenhando. Não entrei na Faculdade de Belas-Artes porque não tinha média. A minha média era 15 [valores], não era má, mas não chegava. Na altura, estava na Escola Passos Manuel, na área C de Economia, que não tinha a ver comigo. Eu só queria passar. Depois fiz o 12º ano à noite na área E (Desenho) para tentar subir a média, mas mesmo assim não consegui entrar. Com 19 anos, entrei no Ar.Co - Centro de Arte e Comunicação Visual, em Lisboa, e fui-me deixando estar. Fiz a minha formação em desenho e ilustração e frequentei algumas aulas de pintura. Estive no Ar.Co até aos 25-26 anos.

Entretanto, conheci o Pedro Salgado, o grande impulsionador da ilustração científica em Portugal. Foi aí que as coisas começaram a encaminhar-se. Fiz com um dos primeiros cursos de ilustração científica que ele deu. Criámos uma certa afinidade e ele convidou-me a ir para o ateliê dele. Passei lá muitas tardes a trabalhar. Desde então somos amigos.

Mais tarde, frequentei uma pós-graduação no IADE - Instituto de Artes Visuais, Design e Marketing, em 2002-2003, na área da banda desenhada e ilustração, em que uma das disciplinas era ilustração científica. Em 2003-2004, fiz outro curso de ilustração científica com o Pedro Salgado, no IAO - Instituto de Artes e Ofícios da Universidade Autónoma de Lisboa.

O Pedro Salgado, em 2007, juntou várias pessoas, sobretudo ex-alunos, e criou o chamado Grupo do Risco, um grupo de ilustradores que desenha e pinta, cada um à sua maneira, os locais por onde vamos passando. Depois fazemos exposições ou catálogos. Não fui à primeira viagem, às Berlengas, mas fui às outras, no Douro Internacional, na Amazónia, na Ria Formosa, na Laurissilva (Madeira), em Doñana e no Caramulo (antes e depois do incêndio). Sobre a Amazónia, fizemos uma exposição no Pavilhão da Expo e catálogos. Também há um catálogo com o trabalho feito na Laurissilva.

Neste momento, estou a fazer um mestrado em ilustração científica e desenho naturalista no IAO, onde fiz a pós-graduação, com orientação de Pedro Corte-Real. A tese é sobre os “Animais do Jardim Zoológico”.

“A ilustração científica difere do desenho naturalista”

Em 2012, publicou um livro intitulado “Animais do Jardim Zoológico”. Como surgiu esse livro?

Eu sempre adorei animais. Um amigo sugeriu-me que fizesse algo com animais para mostrar o meu trabalho. Em 2002, na minha pós-graduação, tínhamos de fazer trabalho de campo e eu escolhi ir para o Jardim Zoológico e fiz-me sócio. Passava lá muito tempo a desenhar. Os tratadores já me conheciam. Até os animais! Convidei um primo meu, ex-jornalista, para escrever os textos e mostrámos o trabalho ao diretor dos CTT, que também era sócio do Jardim Zoológico e adorou a ideia [ver Recursos].

O que distingue a ilustração científica de outros tipos de ilustração?

A ilustração científica tem como principal fundamento comunicar ciência e, como tal, tem de ser rigorosa. Uma ilustração hiper-realista pode não ser científica. Pode estar muito bem feita, mas não ir de encontro à natureza do objeto. Por exemplo, se pintar um peixe muito bem, mas não estiverem todas as escamas, não é científica porque não retrata a espécie como ela é.

Além disso, a ilustração científica é um complemento visual da ciência. Não é feita com o intuito de embelezar paredes. Nem precisa de fundo. Por vezes, vemos ilustrações científicas em fundo branco.

O meu livro do Jardim Zoológico tem um misto de ilustração científica e desenho naturalista, como escrevo na minha tese de mestrado, que é precisamente sobre os desenhos que fiz e o processo de trabalho que desenvolvi ao longo de quase 10 anos.

Um dos propósitos era retratar o animal e o que a ilustração científica faz é retratar a espécie. Se o animal tiver um defeito ou uma característica que não seja comum, a ilustração científica pega nesse animal como referência e tira esse defeito ou característica para representar a espécie inteira e não um indivíduo. No livro, desenhei muitos indivíduos, animais com características bizarras. Havia um ónix que tinha um chifre para frente e outro para trás. Se fosse ilustração científica, tinha de fazer o ónix com os chifres paralelos.

Além do livro, tenho vários desenhos que se integram na ilustração científica. Ilustrei o livro infantil “Há Fogo na Floresta”, de Isabel Alçada e Ana Maria Magalhães. No meio das duas histórias, há espécies da mata, do bosque de Portugal, quer plantas, quer animais.

Também fiz ilustração científica nos cursos, porque gostava, mas os trabalhos ainda não foram publicados.

“Não dá para viver apenas da ilustração científica”

E ganha ou pensa ganhar a vida com a ilustração científica?

Durante 6 anos, fui professor de pintura na Junta de Freguesia de São João de Deus. Saí porque um amigo convidou-me a trabalhar na empresa dele de ilustração. Fazíamos coisas que eram uma chatice, desde storyboards a stands. Estive nessa empresa até ela fechar, há cerca de três anos. Foi mais uma das empresas atacadas pela crise.

Neste momento sou freelancer e nem sempre tenho trabalho ou tenho trabalho que é mal pago. Espero que seja temporário. Apesar de estar numa situação financeiramente mais complicada, faço coisas de que gosto mais.

Desde que estou a trabalhar como freelancer, não tive um pedido de trabalho em ilustração científica. Para já, não dá para viver apenas da ilustração científica. Faço muita coisa, mas por gosto, por carolice.

Como ilustrador, tenho trabalhado para o Jardim Zoológico, tenho feito desenhos para t-shirts, mas são desenhos naturalistas, e rótulos para garrafas de vinho.

Também faço ilustração infantil. Os meus personagens são animais, como o tigre, que é o meu animal preferido. Criei o “Sabu, O tigre Pintor”, o meu alter-ego, quase. Mas se eu quisesse viver só da ilustração infantil, também não conseguia.

O que gostava de fazer?

Dentro da ilustração científica e do desenho naturalista, vou enviar o meu portfólio para Parques Naturais, no país ou no estrangeiro, porque, para além de gostar de desenhar, gosto muito de viajar, com o material às costas. Uma pessoa, quando faz ilustração científica, não tem só imagens no computador. Muitas vezes tem de ter um trabalho de preparação num caderno de campo, em que fazemos os esboços preliminares. O trabalho fica mais rico.

Acha que a área da ilustração científica tem futuro?

Acho que sim, cada vez mais. Eu próprio já dei formação e estou a dar um workshop de ilustração científica no Ar.Co.

Portugal é um dos países pioneiros na ilustração científica devido aos Descobrimentos e às viagens filosóficas nos séculos XVIII e XIX, lideradas por Alexandre Rodrigues Ferreira. Desde aí que havia necessidade de desenhar para retratar tudo o que se pretendesse, desde animais, plantas, indígenas, vilas, vestuário. Tudo vinha do novo mundo sob a forma de desenho.

 

Ainda no século XIX, o Rei D. Carlos dedica-se ao estudo das espécies marinhas da costa portuguesa. Enquanto artista da “Casa do Risco”, o Rei mostrava todo o seu talento nas aguarelas que ia fazendo. E é daqui que vem o nome do grupo de desenho “Grupo do Risco”: da Real Casa do Risco, onde os artistas eram os “riscadores”.

 

Nós temos tradição, talento e empenho, não temos é muito mercado devido à nossa escala. Esse é, sem dúvida, o maior problema de um ilustrador científico e, de facto, todas as ajudas são poucas.

 

Por exemplo, quando a expedição do Grupo do Risco foi à Amazónia, muito pouco se amealhou de ajudas, quer estatais, quer privadas, o que dificulta o levar a cabo as inúmeras expedições e desafios que o Grupo do Risco é convidado a integrar, visando o reviver do desenho documental, científico, e no contexto de hoje, o espaço para o desenho artístico e despreocupado.

 

Em Portugal fazem-se coisas, sim, mas podia e devia fazer-se mais.

 

Na imagem: Salmonete (Mullus surmuletos)

 

Imagem: Pedro Salvador Mendes

 

 [Ver galeria de imagens do autor]

 

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Pedro Salvador Mendes a desenhar

Trabalho de campo

Os animais são uma das paixões do ilustrador

Camelo

Animais do Jardim Zoológico

O livro que Pedro Salvador Mendes ilustrou

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